CONTOS de Carlos Kaliban
A DANÇA DAS BORBOLETAS

A noite chegou e trouxe seus próprios sonhos. Sonhos diferentes do dia. Os sonhos do dia às vezes parecem os reais pesadelos.Me aninho na cama. A noite está muito fria. Me sinto encolhido debaixo dos cobertores como se fosse uma lagarta em seu casulo. Abraço o travesseiro e penso no amor distante. À medida que meus olhos se fecham a metamorfose se inicia. Começo a romper o casulo que me prende a esse mundo. Lentamente vou me libertando da prisão e ao abrir as asas, sinto-me pronto para o voo. De início com movimentos tímidos, até esticar as asas totalmente.

A borboleta alça voo em direção à noite. O brilho prateado da lua cheia reflete em suas asas. Tudo fica para trás. Só a leveza acompanha o movimento cadenciado das asas. Um grande silêncio predomina. Tudo ficou lá em baixo. As prisões, as amarras, os problemas, os conflitos. A borboleta só levava a si e assim estava leve e descomprometida.

Voando em direção à lua ia outra borboleta. Nos encontramos no nada, acima de tudo. Sem uma palavra começamos a dançar. A Dança das Borboletas, que já tínhamos vivenciado outras vezes. Girávamos um em torno do outro como se o centro da vida estivesse lá, mas ao mesmo tempo girávamos em torno de nós mesmos, como se o centro estivesse em cada um de nós.

Passamos a noite na dança conversando como fazem as borboletas. No silêncio, nos fortalecíamos e nos aproximávamos. No silêncio podíamos avaliar o significado do nosso encontro. No silêncio se podia ter certeza dos sentimentos e dos objetivos comuns. Afinal, era apena o de voar juntos na imensidão do céu, livre de qualquer peso que nos dificultasse o movimento. Vivenciar juntos a paz propiciada por um voo a dois não tinha preço. O dia começava a aparecer no horizonte, aproximando-se cada vez mais rápido. Chega a hora das borboletas se despedirem como se despedem as borboletas. O toque das asas, o movimento do voo em forma de de oito indicando o infinito como uma possibilidade real, acalma e trás paz às borboletas quando elas se despedem.

Volto ao meu casulo e a metamorfose se dá ao contrário embora seja impossível para as borboletas mas possível para os homens. Ao acordar estarei de volta aos meus afazeres, aos meus conflitos, aos meus problemas, mas sem dúvida nenhuma abastecido da energia gerada na Dança das Borboletas.


 
 
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