HISTÓRIAS de Carlos Kaliban
A PRINCESA E O SAPO


Há muito tempo atrás, bem distante daqui, existia um reino encravado nas montanhas, onde riachos cristalinos serpenteavam entre bosques e pedras, formando poços, cascatas e cachoeiras.

Naquele reino existia uma cachoeira muito alta e bonita. Nessa cachoeira vivia um arco-íris.

Naquele reino viviam também, entre muitos nobres e vassalos, um rei e uma princesa.

A Princesa era muito bonita. Sem nenhuma dúvida, ela era a jovem mais bonita que já vivera naquele reino.

O Rei a amava e fazia tudo por ela. Deu-lhe as melhores roupas e a melhor educação.

Magos, dervixes e mestres mais conhecidos daquelas redondezas tinham lhe transmitido muitos ensinamentos. Tinha tido a melhor educação possível.

Vivia muito feliz no reino de seu pai. Entretanto, alguma coisa lhe faltava.

Seu pai, o Rei, sempre lhe dizia que um dia chegaria ao Reino um Príncipe para pedir a sua mão em casamento.

Ela passava horas pensando como seria esse Príncipe. Ficava imaginando como seria seu rosto, seu corpo e a cor de seus cabelos. Como seria seu nome e como entoava a melodia de sua voz.

Depois de algum tempo pensando e sonhando de olhos abertos, ficava revoltava por se sentir ridícula.

- “O que adianta eu ficar pensando, imaginando e sonhando. Isso não tem nada do mundo real. O Príncipe que virá independe do que eu possa imaginar. Talvez até não seja lindo”!

Uma coisa, porém era certa. Ele viria. Todos sabiam que naquele reino vivia uma linda Princesa. Essa notícia corria em todos os reinos vizinhos e até nos mais distantes. Mas quando ele viria? Ninguém poderia saber e muito menos como ele seria.

A incerteza daquela situação martirizava a Princesa. Uma coisa, porém era certa:
- "Eu sou uma Princesa e terei que esperar pelo meu Príncipe".

Um dia, aproveitando o descuido dos guardas do palácio, ela escapuliu e foi passear nos campos. Seguiu por uma trilha através de um bosque e chegou até a cachoeira onde vivia o Arco-íris.

O dia estava muito bonito. O azul do céu era intenso e o sol brilhava muito forte e seus raios traziam calor e vida.

Mariel, este era o nome da Princesa, parou à beira do riacho cristalino e olhou a figura do seu rosto refletido na água. Era muito jovem, mas a imagem que via de si mesma estava toda enrugada pela superfície trêmula da água.

- “Será que estou ficando velha”? Perguntou assustada.

- “Quando o Príncipe chegar, será que vai olhar para mim”?

Mais uma vez as dúvidas, as incertezas quanto ao seu destino, atormentavam Mariel.

Então olhou para o Arco-íris que atravessava de uma margem a outra do riacho emoldurando a cachoeira como se fosse um magnífico portal.

Todo aquele cenário a fez tremer. Sentiu uma energia muito forte percorrendo o seu corpo.

Era como se fosse possível conseguir tudo o que pudesse desejar.

Sentia que poderia resolver toda a sua vida e seu destino ali mesmo, mas não sabia como.

Eis que um barulho chamou a sua atenção. Era alguma coisa que tinha saltado dentro da água. Olhou para os círculos concêntricos que tinham se formado e esperou para ver a causa do barulho.

Começou a notar uma forma movimentando-se no fundo do riacho. Aos poucos foi se movendo para a superfície.

Eis que ele emergiu. Era um sapo.

O Sapo nadou com braçadas rápidas até a margem e subiu em uma pedra. Ali ficou tomando sol, debaixo da cachoeira e emoldurado pelo Arco-íris. Era uma visão fantástica e o sapo estava no foco dela.

Mariel estava ofegante. Suas fantasias galopavam em sua mente. Seus desejos distorciam a realidade. Suas lembranças de estórias de bruxas e príncipes encantados também vieram à tona.

Sua mente divagava entre a possibilidade daquele sapo ser um príncipe encantado por alguma bruxaria ou ser apenas um sapo comum.

Mas tudo ali compunha um quadro fantástico e místico.

Mariel fechou os olhos e uma imagem veio em sua mente. Era o seu Príncipe, vestido como príncipe, tendo a pele clara e os cabelos negros. Sua roupa era branca com galões vermelhos e dourados.

Mariel começou então a girar, de olhos fechados, ora concentrando-se na imagem do príncipe ora na imagem do sapo. Foi girando cada vez mais rápido e cada vez mais rápido se alternavam as imagens do príncipe e a do sapo.

E assim girou, naquele rodopio incessante até que a vertigem veio e ela desfaleceu caindo por terra.

Algum tempo mais tarde começou a recobrar os sentidos. Estava muito cansada e banhada em suor.

Começou a abrir os olhos e não conseguiu enxergar de imediato. Formas difusas estavam à sua frente. Havia movimento nessas formas. Apenas uma delas permanecia imóvel.

Aos poucos Mariel foi distinguindo as formas que se movimentavam. Eram árvores que se moviam ao sabor do vento.

Aos poucos também começou a distinguir a forma fixa. Era uma pessoa. Ela tinha cabelos negros. Estava vestida de branco e nas roupas estavam galões vermelhos e dourados.

Não podia acreditar. Era impossível. Seu desejo não poderia ter materializado. Um príncipe não poderia surgir do nada.

- "Do nada!" Ela exclamou aturdida. Rapidamente seus olhos procuraram a pedra, debaixo da cachoeira, banhada pelo sol e emoldurada pelo arco-íris. Lá estava a pedra. Nada, absolutamente nada, estava em cima dela.

Olhou em volta e nem sinal do sapo.

Então, sentada na relva, ela virou a cabeça e tornou a ver aquele homem muito bonito a fitá-la.

Ele não disse nada. Apenas observou-a por um longo tempo, como se a examinasse detalhada e curiosamente. Ela também se comportou da mesma forma.

À medida que o observava ela começou a sentir uma vibração muito quente percorrendo o seu corpo. Esticou os braços bem devagar em direção àquele príncipe parado à sua frente e perguntou:

- “Quem é você”?

Ele não disse nada. Mariel começou a pensar. Ele não fala. Será que não é humano. Claro que é! E afastou aquele pensamento de sua mente.

A partir daquele momento ela não queria mais ter dúvidas. O príncipe era real e não desapareceria quando ela quisesse tocá-lo. E ela decidiu: "Não vou fazer mais perguntas".

Era por aquele momento que ela tinha passado toda a sua vida sonhando, imaginando e desejando.

O seu príncipe não desapareceria.

Esticou os braços e as mãos em direção ao rosto do seu príncipe que a observava com um sorriso nos olhos e outro nos lábios.

Ele sentou-se na relva. Apoiou a mão esquerda no chão e a mão direita colocou sobre o coração.

Depois, muito devagarinho, Mariel aproximou os seus dedos da face do seu príncipe, até tocá-lo.

Tocou-o e sentiu que era real. Sentiu que era de carne e osso como todas as pessoas.

Ao contato ela estremeceu. O jovem também.

Ele então esticou o braço e lentamente tocou-a nos lábios com os dedos. Mariel sentiu uma coisa maravilhosa. Sentiu se fundindo com aquele homem. Sentiu-se atraída para ele por uma força irresistível.

Acorrentados pelos olhares e ligados pelo toque mútuo, eles foram se aproximando lentamente.

O mundo em volta começava a se diluir desfazendo-se em névoa.

Essa névoa tomava conta de tudo e aos poucos os dois estavam envolvidos nela.
Foram se aproximando cada vez mais até sentirem a respiração um do outro.

O ar quente vindo dos pulmões saia pelas narinas, se misturava e assim retornava de onde viera consolidando aquela união .

Os lábios então se tocaram. Uma espécie de explosão aconteceu.
Tudo então desapareceu. Só permaneceram a Princesa e seu príncipe.

Mariel não sentia o seu corpo. Era como se tivesse mergulhado através do seu príncipe para o nada. A sensação era de profunda felicidade e comunhão com o todo.

Tudo parecia uma coisa só.

Aquilo era o amor, enfim! Era o amor que ela tinha tanto esperado.

Nada foi dito. Nem uma palavra foi pronunciada.

Mariel desfaleceu-se extasiada.

Algum tempo se passou durante o qual seus sonhos galoparam pelas nuvens. Ela e seu príncipe viviam um amor que não acabaria jamais. Nunca deixaria aquele príncipe. Iria aonde quer que ele fosse.

Mariel abriu os olhos bem devagar. Os raios do sol batiam em suas faces aquecendo-as. Olhou para um lado, depois para o outro. Ninguém! Olhou para cima e lá estava a cachoeira emoldurada pelo arco-íris. Debaixo da cachoeira estava a pedra. Em cima da pedra...

Não! Não podia ser! Lá estava o sapo.

Sua mente girou num grande redemoinho não querendo acreditar.

O sapo então mergulhou da pedra em direção ao fundo do riacho. Diziam que naquele local havia um poço que não tinha fundo.

Mariel viu o sapo mergulhando e sumindo em direção ao fundo.

Ela então se desesperou. Não podia deixar que ele fosse embora. Sem pensar, seguiu seu impulso. Mergulhou no poço, iniciando uma trajetória sem fim em direção ao fundo.

Naquele exato momento, alguém chegou pela trilha que vinha da floresta. Estava procurando por ela.

A única coisa que ele viu, foi uma mancha branca no fundo do poço, diminuindo, diminuindo, até por fim desaparecer.

Quem acabara de chegar era Olavo, conhecido nos reinos distantes como “O Príncipe Mudo” e que voltava ao local, onde instantes antes, tinha deixado a sua amada, a Princesa Mariel.

 
 
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