CONTOS de Carlos Kaliban
FAZER DIFERENTE

Em um lugar, não muito distante daqui, moravam várias toupeiras. Como todos sabem, as toupeiras passam a maior parte de suas vidas dentro dos seus buracos. Elas evitam o mais que podem, viver no mundo externo. A qualquer sinal de perigo que sinalize insegurança para elas, se recolhem e esperam o perigo passar. Na maioria das vezes nem chegam a identificar o problema real.

Mas uma das toupeiras de nossa história tinha um comportamento diferente. Quando sentia que algo estava para acontecer, ou mesmo, que estava acontecendo, ela não se mantinha reclusa em seu buraco e nem deixava que sua imaginação a dominasse. Por pior que fosse a sua exposição, ela procurava os outros animais para saber o que estava acontecendo e assim pudesse dar o melhor destino para a sua vida.

A outras toupeiras, como é comum entre as toupeiras, quando se sentiam inseguras se recolhiam e passavam muito tempo sem contato com os de sua espécie e muito menos com os diferentes. Faziam o que as toupeiras faziam e o que tinha aprendido de sua própria família. Seguiam rigidamente algumas regras, que acreditavam serem sempre verdadeiras e imutáveis.

Certa manhã, havia um grande alvoroço entre os animais. Alguma coisa estava para acontecer. Todos corriam para os lugares altos e subiam em árvores. A toupeira de comportamento diferente procurou entender o que estava acontecendo e recebeu dos outros animais conselhos simples de como agir. "Vá para cima!" alguns diziam. "Aja diferente das toupeiras. Não entre em seu buraco!" diziam outros. A toupeira sabia que ela não era um ser isolado e que todos estavam se movendo regidos por uma unidade. Sabia que se expor era necessário para ela, embora as outras de sua espécie diziam: "Não seja ridícula! Venha para cá! Entre no buraco! Você está se expondo e expondo a todas nós com seu comportamento idiota. As toupeiras não devem ser assim!"

Mas ela não fez o que as outra exigiam dela e tomou uma decisão. Subiu em uma árvore próxima e foi bem lá para cima, para o galho mais alto. Do seu lado, nos outros galhos, estavam vários animais. Era como eles tivessem formado uma grande corrente, juntando pata com pata e se ajudando mutuamente. E o que aconteceu em seguida foi trágico. O mar começou a crescer. Como se fosse uma maré gigantesca o nível da água subiu e todo aquele volume começou a invadir a terra. Era um fenômeno que nunca tinha sido visto. Do galho em que estava viu a água invadir tudo arrastando o que encontrava no caminho. Depois de um certo tempo a água começou a voltar para o mar, até que tempos depois tudo serenou deixando um rastro de destruição.

Ela olhou para o seu corpo, apalpou-o e viu que estava viva. Tinha sobrevivido àquela tragédia porque tinha agido de forma não aprovada pelas suas companheiras de espécie. Pensou então nelas, mas sabia que não tinham sobrevivido. Aquelas águas tinham invadido todos os túneis e de nada adiantou terem se interiorizarem esperando o perigo passar. Em momentos de dificuldades, compartilhar com os outros era para ela uma atitude recomendada. Assim ela fez e sobreviveu à catástrofe. Nem seguir as regras de seu grupo, nem optar pelo isolamento teriam feito que ela se salvasse.


 
 
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