CONTOS de Carlos Kaliban
GIGANTE, POR QUE NÃO?

Isso se passou em uma cidade do interior. Quem lá mora pode atestar a veracidade da história. Quem apenas ouviu falar do acontecido, duvida que seja verdade.

Ao redor da praça estavam dispostas várias casas. Em uma delas morava um cãozinho de porte bem pequeno. Talvez um "poodol", um "pequinês" ou ainda um pequeno "vira-lata", desses que tem um pouquinho de cada raça.

A praça pertencia a ele. Toda manhã saia para passear indo de poste em poste e de árvore em árvore. Só depois de percorrer todo o seu domínio é que regressava para casa, feliz e radiante.

Certa manhã, do outro lado da praça, um caminhão de mudanças anunciava novos moradores. Fazendo parte da "família", também chegou um cão pastor com aspecto nada simpático.

Na manhã seguinte o cãozinho, que talvez por pilhéria tinha recebido o nome de "Gigante", saiu para vistoriar seus domínios. O cão pastor, recém chegado à vizinhança, também resolveu sair. No meio da praça os dois cães se encontraram.

Foi uma luta rápida, sem chances para Gigante, que fugiu bastante humilhado e ferido. Tinha perdido muito sangue e graças a um dedicado veterinário não morreu. Entretanto, demorou semanas até que pudesse andar direito. Enquanto isso, o cão pastor tinha assumido o total domínio da praça e lá desfilava toda manhã.

Gigante ficava deitado por detrás do portão de ferro e de lá observava atenciosamente o seu rival. Ficava imóvel e com a atenção completamente voltada para o outro cão. As pessoas tinham pena dele. Não era mais o mesmo cão esperto, livre e realizado como antes. Ele era agora um prisioneiro. Prisioneiro do seu portão de ferro e do seu orgulho ferido, orgulho esse que demorava muito para cicatrizar.

O tempo passou e ele permanecia sempre na mesma posição, concentrado e colocando a sua atenção, como se analisasse todos os movimentos e toda a personalidade do outro cão. Nesse mesmo tempo se restabelecia e ficava cada vez mais seguro de seus movimentos e de sua força.

Certa manhã, quando o rival fazia o seu passeio, Gigante empurrou o portão de ferro e saiu. Todos que estavam na praça perceberam.

Quem estava no interior das casas, como se um eco inaudível tivesse anunciado o acontecimento, chegou rápido à janela para testemunhar.

Gigante atravessou a rua, depois a praça e foi direto até o outro cão que assumiu uma posição de defesa. Como um lutador que tinha durante muito tempo observado o oponente e identificado todos os seus pontos vulneráveis, Gigante, num movimento muito rápido, pulou direto no pescoço do cão pastor, e com uma mordida certeira fez o inimigo sangrar até morrer. Isso foi muito rápido e ninguém pode fazer nada. Gigante levantou então a cabeça e o rabo, assumindo a pose dos vitoriosos e percorreu árvore após árvore, poste após poste, tornando a deixar em cada um a marca de seu domínio.

Acredite se quiser!


 
 
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