CONTOS de Carlos Kaliban
GUARDADA COM CARINHO

Tarde de domingo. Chovia fino e o céu estava cinzento. As montanhas pareciam mais frias ainda. A velha senhora seguia o cortejo. Havia lágrimas nos seus olhos. Lágrimas que ela nunca imaginou deixar cair. Lágrimas que estavam presas como prisioneiras, no calabouço de seu coração. Seguia um amigo em sua última jornada. Um grande amigo que deveria ter sido muito mais do que isso.

Jogou flores sobre ele e se despediu com uma oração. Estava tudo terminado. Agora ele tinha ido para sempre.

Voltou para casa escutando o som do silêncio e sentindo a paz da solidão. Retirou a aliança que trazia no dedo e despiu o discreto vestido negro. Colocou a caixa de música para tocar. Abriu a gaveta da cômoda e de lá retirou uma carta.

O papel já estava bastante desgastado devido ao tempo. As letras já quase desaparecidas. Porém ela já sabia de cor o que estava escrito lá.

Colocou os óculos, olhou para a carta e mergulhou mais uma vez na sua leitura. Sentiu os lábios dele beijar o seu ouvido e escutou a sua voz, dando um som de fundo divino à sua leitura:

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"Querida!

Fiquei em silêncio até agora porque no silêncio eu me preservo. Como escutar você dizer o que não quero ouvir. Como escutar de você aquilo que não quero escutar de mim mesmo.

Você está certa! Eu também estou. Apenas eu sou assim, embora não queira aceitar isto. Estou certo, mas é um “certo” que me incomoda e aos outros que estão à minha volta.

Não sou a pessoa “boa” que gostaria de ser. Mas é impossível eu mudar isso sem antes eu me aceitar. É preciso antes aceitar o “porque” sou assim e o que me faz ser assim.

A vontade de ultrapassar o abismo e atingir o outro lado é muita, mas a distância também. Uma ponte é necessária. É preciso construí-la, mas olho para o tempo e no vejo como. Não tenho esse tempo. Desanimo e fico paralisado.

Quero me mover, ser livre, seguir meu destino, estar com você, que amo, mas não consigo. Fico preso em meus problemas. Evito quaisquer situações externas que possam sinalizar uma dificuldade a mais. Não posso conviver com mais nada. O meu peso já é enorme. Nem uma mosca a mais sobre minha carga é possível.

Sinto até dificuldade de abrir os meus olhos e ver o mundo além daquilo que está em minha volta. Sinto dificuldades de abrir os ouvidos e escutar as vozes daqueles procuram me ajudar e que me estendem as mãos.

Não quero desagradar àqueles que me fizeram assim. Não quero perder o amor deles mesmo que eles estejam distantes. Eles são muito importantes para mim. Eles são a minha história. Também não quero desagradar àqueles que desejo bem, incluindo você, mas isso acaba acontecendo.

Como gostaria de poder receber aquilo que a vida tem para me dar. Como gostaria de receber o seu amor sem reservas e retribuir da mesma forma. Mas para mim, força e poder devem ser expressões a serem usadas para que eu possa me realizar no mundo. Mas! Que realização é esta?

Será que não quero me realizar apenas sendo amado e te amando? Para que serve tudo o que conquistei? Será que não quero apenas ser tocado, desejado, ser importante para você apenas como uma simples pessoa?

Embora eu não consiga dizer “te amo”, como é bom escutar isso! Embora eu não consiga dar carinho, como é bom receber, embora às vezes chego até a evitar.

Porque me rejeitou se já era suficiente a minha própria rejeição? Porque me deixou sozinho se é assim que eu queria ficar? Eu podia continuar sozinho, mas com você ao meu lado.

Vejo-me agora na situação que queria permanecer, mas que não deveria. Como mudar isto? Sou impotente. Não sei como. Só sei que muitas vezes me comporto como criança que bate o pé e não aceita ajuda.

Mas, uma coisa eu lhe peço:

Não desista de mim nunca. Mantenha o seu amor por mim. Cuide de mim da forma que for possível. Embora eu não acredite no futuro, sei que o próprio “futuro” acredita nele. Quero ser feliz e vou conseguir. Fique de mãos dadas comigo, mesmo que distante. Não me esqueça. Espere-me. Embora eu não acredite, nosso dia chegará!

Do “Eternamente Seu”!
"
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Quando terminou de ler, a música já tinha terminado. Fechou a tampa da caixa de música com carinho, acendeu um fósforo e ateou fogo à carta colocando-a sobre uma bandeja de prata até que só restaram cinzas. Tudo tinha terminado, pensou!

Em seus olhos, lágrimas. Em seu coração, saudades. Em seus lábios, uma palavra: “Adeus”. Em seus ouvidos, uma voz ecoou dizendo: “Te amo e te espero aqui onde estou, sempre!”


 
 
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