CONTOS de Carlos Kaliban
NOIVA TEIMOSA, NOIVO TEIMOSO

O vilarejo era pequeno. Um amontoado de casas simples ao redor de uma pracinha onde se erguia uma graciosa capela. Em volta da capela um jardim bem tratado limitado em toda extensão por uma cerca viva de cipreste que era mantida sempre bem aparada. O piso da capela se erguia cerca de um metro em relação à rua. Na frente da porta principal uma escada com os degraus em forma de semicírculos convidava todos a entrar.

Sebastião era ferreiro. Cuidava dos cascos dos animais de montaria da região. Fazia vários outros trabalhos com o ferro. Dobradiças, portões, molas para suspensão de veículos e outros que envolviam a forja, a bigorna, a ventoinha, os arrebites e o ferro. Ao ferro ele dava forma batendo pacientemente com o martelo de encontro à bigorna. Ferro vermelho qual brasa, duro de origem, mas que não resistia a paciência e a perseverança de Sebastião.

Maria Lara era uma mulher pequena. Órfã de pai desde tenra idade. Sua mãe estava sempre doente. Ela cuidava dos seus sete irmãos com mão de ferro. Impunha disciplina e colocava todos para trabalhar. Tinha muita fibra. Além dos trabalhos domésticos cuidava também da capela. Por dentro e por fora! O jardim era o seu orgulho. Fazia questão de manter tudo sempre muito limpo e organizado.

Mainá era uma mula. Mula teimosa como muitas outras. Era a mula de Sebastião. Quem quisesse montar nela, conseguia. Não era arisca. Deixava ser escalada com total indiferença. Mas quando o “garboso” cavaleiro manifestava a intenção de que ela andasse, nada acontecia. Ah! desculpem, acontecia sim! Ela movimentava apenas a orelha esquerda e virava levemente a cabeça para poder observar aquele cavaleiro sonhador. Por mais que se tentasse, fosse através das rédeas ou do chicote, apenas era conseguido um movimento de orelha e de cabeça de Mainá. Era como se ela perguntasse:

- “E aí? Vai desistir ou vai ficar tentando por muito mais tempo?”.

O vilarejo ficava situado no meio de uma planície. Para qualquer sentido que se olhasse, lá estava o horizonte formando uma longa linha curva. Se girássemos a cabeça devagar observando ao longe até voltar ao mesmo ponto, a impressão era de que estávamos no interior de um imenso círculo.

Sebastião era o homem mais obstinado que se tinha notícia. Teimoso era o termo mais certo. Quando metia uma coisa na cabeça não tinha “crente” que tirasse.

Maria Lara não ficava atrás. Quando encasquetava alguma idéia na mente, tinha que executar. Há alguns anos atrás ela tinha assumido o compromisso de organizar a festa do Padroeiro. São Tomé deve ter ficado muito contente e com certeza só acreditou quando viu o sucesso que Maria Lara conseguiu. Porém, no encerramento da festa, ela fez um discurso para a população. No calor da emoção ela afirmou que a cada ano a festa seria melhor. E de lá para cá tem sido. Sua teimosia em superar a festa anterior faz com que ela se esgote a cada ano. Mas alheia aos conselhos ela não desiste.

- “No ano que vem vai ser melhor. Eu, Maria Lara garanto”.

Mainá então era a teimosia em forma de perfeição! Quase perfeita! Não fosse uma pequena fraqueza, seria, com certeza! A sua fraqueza se chamava Sebastião. Era só ele chegar perto que ela relaxava a musculatura toda, levantava as duas orelhas, estufava o peito e começava a alizar o chão com as patas dianteiras. Diante da teimosia de Sebastião ela se curvava impotente e se oferecia para levá-lo onde fosse, mesmo que ao final do mundo. Ela sabia que não adiantava lutar contra ele. Jamais venceria.

A capela era um sonho. Sonho de Maria Lara. Sonho que envolvia vestido branco, flor de laranjeira, marcha nupcial, o solene “Sim”, os cumprimentos dos convidados e o beijo do “Noivo”. Afinal o “Noivo” também fazia parte do sonho de Maria Lara. Mas pretendente que era bom, nenhum! Com a fama que tinha de mulher decidida e teimosa, homem nenhum tinha coragem de encará-la.

Sebastião conhecia Maria Lara, claro! Num pequeno vilarejo todo mundo se conhece. Mas a paixão mesmo começou numa manhã de domingo. Depois da missa, a diversão era sempre o “Desafio de Mainá”. Havia uma caixinha, na qual quem se candidatava a fazer com que Mainá desse apenas uma volta em torno da praça, deveria colocar determinada quantia. O prêmio ia sempre acumulando, fazendo com que cada domingo mais gente viesse para tentar.

- “Não adianta! É perder tempo e dinheiro. Só o teimoso do Sebastião consegue fazer ela andar”. Dizia um.

- “Todo mundo é bobo! O sebastião vai é ficar muito rico até essa mula morrer”. Dizia outro.

Maria Lara escutava os comentários mas agia com indiferença. Sempre considerou que o dia em que ela resolvesse, Mainá iria, não só andar, mas dar duas voltas em torno da capela, e a galope! Naquela manhã alguém comentou:
- “Aqui não tem homem para fazer essa mula andar! Falei só homem porque mulher nem conta!”, e desandou a gargalhar.

Maria Lara escutou aquilo e seus miolos ferveram. Quem estava perto jura que viu fumaça saindo de seus ouvidos. Atravessou a rua de carreira em direção à caixinha e depositou lá a quantia da aposta. Dirigiu-se até Mainá. Chegou perto de sua orelha e cochichou alguma coisa. No mesmo instante a mula levantou as duas orelhas, estufou o peito e começou a raspar fortemente o chão com as patas dianteiras. A multidão olhava estupefata. Maria Lara montou, empunhou as rédeas com firmeza e deu em seguida uma leve balançada batendo com as mesmas no pescoço de Mainá.

Para espanto de todos e sem que ninguém esperasse, lá estavam as duas a galopar em volta da capela. Para surpresa de Maria Lara, não foram duas voltas, pois ela só conseguiu estancar Mainá na quinta volta.

Sebastião ficou surpreso. Além disso começou a sentir algo estranho dentro dele. Algo que parecia querer pular para fora do peito.

Estendeu a mão em direção de Maria Lara para ajudá-la a desmontar. Ela não precisava daquilo mas consentiu com um sorriso disfarçado no canto da boca.

Maria Lara recebeu o dinheiro da "caixinha" junto com os aplausos de todos. Sebastião cumprimentou-a e tentou dizer alguma coisa, mas algo na garganta não deixou o som sair. Sem dúvida, estava apaixonado!

Ela parecia corresponder. Segurando a mão dele, suas faces ficaram rubras, da cor do ferro em brasa que ele costumava malhar. Ele percebeu sua cor e ela percebeu seu palpitar.

Muitas luas se passaram e o relacionamento entre eles foi se aprofundando. Cada qual respeitava seu parceiro, de forma que não havia nenhum tipo de competição entre eles. O que um dizia, o outro concordava, no ato.
Um belo dia resolveram ficar noivos e durante uma festança marcaram a data do casamento.

Quando estava próximo da data prevista Maria Lara cobrou de Sebastião que desse entrada nos papéis para o casamento civil e religioso. O religioso ela nem podia pensar. Era uma “viagem só!”. O vestido de noiva era lindo. Pertenceu à sua tia Indalinda que nem chegou a usá-lo. Seu noivo fugiu com outra nas vésperas do casamento. Mas Maria Lara não era supersticiosa e tinha certeza de que aquilo não lhe traria nenhuma espécie de azar.

- “Religioso!”, exclamou o noivo, “de jeito nenhum!, só caso no civil”, completou.

Maria Lara quase desmaiou. Retomou o fôlego e disse:

- “Se você não casa no religioso pode desaparecer da minha frente, e para bem longe”, disse ela, vermelha de raiva.

- “Eu vou sem pensar duas vezes”, ele respondeu com ironia.

- “Se você for, eu visto o vestido de noiva e fico com ele esperando até você botar os pés aqui de novo”. Falou bem de frente para ele, quase nariz com nariz.

- “Pode colocar o vestido. Mas no religioso eu não caso. Se você insistir na teimosia‚ é certo que seja enterrada com ele”, afirmou Sebastião.

- “Então suma-se da minha frente”. Atravessou então a rua, desamarrou a mula, trouxe para ele montar e disse:

- “Estou esperando você de volta e para casar na capela, seu teimoso!”.

- “Eu vou e cada dia estarei mais distante de você. Se por acaso algum dia eu voltar, eu caso na capela. Pode no entanto desistir porque eu nunca volto atrás!”. Dizendo aquilo montou, virou o focinho da mula em direção ao leste e iniciou sua cavalgada.

Ele já tinha partido fazia seis meses. Ela continuava vestida de noiva, a esperar. Só tirava o vestido para lavar, o que fazia em dia de sol forte para que ele secasse bem depressa.

O trabalho na capela continuava sem qualquer modificação. O jardim continuava lindo e bem tratado. Para ela, o cenário onde queria realizar o seu grande sonho deveria estar sempre pronto. A qualquer momento ele voltaria.

Os habitantes do vilarejo, cada qual por sua vez, visitavam Maria Lara com a finalidade de dissuadi-la daquela teimosia. Todos tiveram o mesmo insucesso. No dia do primeiro aniversário da partida dele, a população se reuniu decidindo que juntos iriam falar com Maria Lara. Aquela situação não podia mais continuar. Ela, vestida de noiva, esperando pelo noivo teimoso.

A multidão, se bem que no vilarejo não existiam tantos habitantes assim, aproveitou a missa de domingo e quando Maria Lara abriu a porta da capela, um porta-voz dirigiu-se a ela.

- “Maria, termine com essa teimosia. Sebastião não vai voltar. Ele também é muito teimoso. Gostaríamos que você parasse de usar esse vestido e esquecer essa história de esperar por ele”.

Ela fez um sinal que queria falar. Todos ficaram em silêncio e ela começou.

- “Vocês estão insistindo que eu mude de atitude. Vocês acham que é teimosia, mas não é . Quando mantive a minha posição diante da ameaça dele, eu sabia o que estava fazendo. O que ele disse antes de partir?”, perguntou.

- “Disse que se você não voltasse atrás na sua decisão ele montaria na mula e seguiria estrada afora para nunca mais voltar. Disse também que em cada dia que passasse ele estaria mais longe daqui”, foi a resposta.

- “E o que eu fiz depois disso?”

- “Você atravessou a rua, soltou o cabresto da mula, pegou as rédeas bem junto da boca e a trouxe até Sebastião. Ele montou e partiu”, falou o porta-voz do grupo.

- “Pois bem, eu vou explicar tudo direitinho. Quando eu estava trazendo Mainá , a mula, eu avisei a ela que deveria seguir só em frente. De jeito nenhum ela deveria desviar do caminho. Sempre em frente, senão - eu avisei - ela iria se haver comigo. Depois eu entreguei a mula a ele, ele partiu e estou esperando ele chegar”.

- “Continuamos sem entender. Qual ‚ a sua certeza?”

- “Vocês ainda não perceberam? Ele prometeu que a cada dia estaria mais longe daqui e eu ordenei a Mainá que seguisse sempre em frente. Ele só não chegará pela rua na ponta oposta que ele partiu se a Terra não for redonda!”, concluiu com um sorriso confiante.

O tempo passou e um dia ...

 
 
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