CONTOS de Carlos Kaliban
O CABELO

Ele era um menino muito vaidoso. Tinha 11 anos e estava entrando na adolescência. Já se interessava muito pelas meninas.

Todos os dias, antes de sair para à escola, cuidava com esmero de sua roupa e de seu cabelo. Caprichava muito na hora de fazer o penteado. Passava muita goma para que não se desmanchasse ao vento e repartia várias vezes até ficar satisfeito com o que via no espelho.

Na escola notava que as meninas riam quando olhavam para ele. Não conseguia entender. O que estava errado? Era um menino bonito, com certeza. Vestia-se bem mas havia alguma coisa que não percebia.

O tempo passou, e aquela situação se repetia quase todos os dias. Ele não tinha coragem de chegar até as meninas, já que elas riam dele. Ficava assim, à distância.

Um dia, o grupo de meninas estava conversando bem no centro do páteo da escola. Ele pensou ouvir uma voz que lhe disse: -“Vai lá! Coragem!”

Eram umas cinco ou seis meninas. Cada uma mais encantadore que a outra. Uma delas, entretanto, era mais que especial e despertava dele um sentimento muito agradável.

Ele seguiu a voz e enfrentando o medo e a vergonha se dirigiu até onde elas estavam.

Quando elas perceberam o seu movimento, foram saindo devagar, cada uma qual em uma direção. Somente uma ficou lá. Aquela que era especial.

Ele chegou junto dela, sorriu e se apresentou: -“Eu sou o Zeca e qual é o seu nome?”

Ela sorriu para ele e disse: -“Me chamo Laura.”

-“Por que todas as vezes que vocês, meninas, me vêem, vocês ficam rindo? Perguntou ele muito envergonhado.

-“Ás vezes só percebemos aquilo que vemos. O que não conseguimos ver com os nossos próprios olhos, nem acreditamos que possa existir.”

-“Porque você está dizendo isto?” Perguntou.

-“Porque a imagem que você tem de si é diferente daquela que os outros tem. Quer ver?”

-“Quero! Me mostre então!” Disse com euforia.

Então, a menina pegou na mão dele e o levou até um lavabo que ficava junto à entrada das salas de aula. Lá havia um espelho. Ela então disse:

-“Olhe-se no espelho. Nele está aquilo que você não vê.” A menina era muito esperta e falava coisas que ele demorava para compreender, ou então, nem conseguia.

Ele olhou, virou a cabeça para um lado e para o outro e não conseguiu notar nada.

A menina então disse: -“Espere!” Abriu a mochila e pegou um espelhinho que estava lá. Entregou para o menino e disse:

-“Agora, fique de costas para o espelho que está na parede e olhe o seu reflexo nele, através do espelho que está na sua mão. O que vê?”

O menino olhou e não acreditou. Bem atrás de sua cabeça, o cabelo estava todo arrepiado. Parecia até o penacho de um pássaro. Ele passava um tempão penteando e engomando aquele cabelo. Mas só penteava aquilo que via porque era o que existia para ele.

Desta forma foi revelado a ele que existem muitas coisas próximas de nós e que não conseguimos ver. Algumas delas nos exigem ter fé e acreditar nelas, porque nem no espelho podemos perceber.

A menina o tinha ajudado a perceber que existe um lado oculto em cada pessoa e que embora não esteja visível para o próprio, causa nos outros reações. No caso, foram reações de riso, mas poderiam ter sido de afastamento, repulsa, preconceito, discriminação, agressão, incompreenção e muito mais coisa.

A existência do oculto foi revelado a ele desta forma. Entendeu que era preciso ser como percebia e entender como era percebido.

Ele passou a pentear os cabelos da forma correta e o comportamento das meninas mudou. Todas sempre estavam à sua volta no páteo da escola e esses momentos eram muito felizes. A partir daí, passou a aprender muito com Laura, que continuou sendo sempre sua amiga, até os dias de hoje.

 
 
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