CONTOS de Carlos Kaliban
O CAVALEIRO NEGRO

Ele morava em uma cidade do interior. Cada caminho, cada atalho e cada local eram por ele conhecidos, pois tinha nascido naquele lugar e tinha sido uma criança muito curiosa. Procurava conhecer tudo que pudesse.
Certa noite ele voltava para a cidade dirigindo o seu velho carro. Uma tempestade muito forte começou a se formar. Ele procurou andar o mais rápido que podia para chegar até sua casa com segurança antes da chuva, mas não teve jeito.

Transitava por um trecho montanhoso. A estradinha era estreita e de um dos lados um verdadeiro abismo o acompanhava. A pista começou a ficar bastante enlameada. Em seguida uma neblina desceu e se associou à chuva que já era fortíssima, o que dificultou mais ainda a visibilidade e a segurança.

Ele dirigia muito devagar e com bastante atenção. Não conseguia ver nada além de um metro de distância. Por várias vezes a frente do carro deslizou e com muita dificuldade ele conseguiu impedir que o carro rolasse encosta abaixo.

Era preciso parar e deixar a chuva passar, mas isto também era muito perigoso. Outro motorista poderia estar vindo no mesmo sentido que ele. Sem enxergar nada, seria quase certo ocorrer uma colisão que o jogaria no abismo, o que seria morte certa.

Também havia o risco de um grande deslizamento da encosta. Pequenos deslizamentos já estavam acontecendo. Um grande parecia bastante provável.

Pensou em sair do carro, mas para onde ir? Que lugar poderia estar seguro? Do lado esquerdo um barranco inacessível e prestes a deslizar, do lado direito um abismo. Fora do carro também não teria segurança.

Então, ele resolveu rezar. Era devoto de São Benedito, o santo padroeiro de sua cidade. Quando estava rezando, implorando para que aquilo tudo passasse, eis que ele vê um vulto que se aproximou e parou junto da porta do carro. Com dificuldades ele percebeu que era um cavalo negro. Montado nele um negro vestindo uma capa negra dessas que os cavaleiros usam. Também portava um chapéu de couro também negro. Uma visão totalmente sombria, como se fosse um personagem de uma noite de terror.

Diante daquela aparição ele se “borrou” de medo. O que era aquilo? De onde vinha e o que queria? Era do bem ou do mal?

O cavaleiro bateu com os dedos no vidro do carro. Com as mãos trêmulas ele abriu um pouquinho o vidro. O Cavaleiro Negro falou:

-“Moço! Pegue aquele atalho ali na frente e você chegará à cidade com segurança!”

-“Ali não tem atalho nenhum! Eu conheço tudo por aqui!” Disse.

O cavaleiro insistiu. –“Faça o que eu estou indicando. Pegue o atalho e saia dessa situação.” Logo em seguida esporou o cavalo e seguiu adiante.

Por uns instantes ele ficou em dúvidas. Seguia ou não a orientação do Cavaleiro Negro? Perguntou ao seu coração o que devia fazer, mas antes de obter resposta um deslizamento aconteceu bem atrás do carro, quase o atingindo. A resposta estava dada.

Movimentou o carro e verificou que existia um acesso que parecia o início de uma estradinha. Entrou nela e logo percebeu que era segura. O chão era bastante empedrado o que dava segurança. Foi seguindo por ali até que, inesperadamente estava entrando na cidade.

No dia seguinte ele voltou ao local onde tinha estado na noite anterior. Ele estava muito intrigado. Foi fácil de reconhecer, pois naquele lugar tinha uma enorme goiabeira. Quando criança, tinha ficado com muita dor de barriga, pois fazia excessos ao comer as goiabas.

Chegando, viu que as marcas de pneu do seu carro ainda estavam lá. Procurou pelas marcas das patas do cavalo e nada. Procurou pelo atalho que pegou seguindo as instruções do Cavaleiro Negro e não achou. Era tudo muito estranho, fora da sua compreensão.

Mas, de uma coisa ele tinha um sentimento muito forte. De alguma forma tinha sido salvo de um acidente trágico. Ajoelhou-se, rezou e agradeceu a São Benedito por aquilo que considerou um milagre.

 
 
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