CONTOS de Carlos Kaliban
O PÁSSARO FERIDO

Ele apareceu numa certa manhã, há quase um ano. Não chegou voando. Veio caminhando pelo gramado com uma das asas caída. Estava doente e pelo visto não podia voar. Sua vida apresentava limitação. Não podia fazer aquilo que queria nem voar livre pelos céus. Estava momentaneamente limitado e se sentia incomodado.

Aproximei-me devagar para não assustá-lo. Cheguei bem próximo dele e estiquei as minhas mãos para pegá-lo. Ele não tentou fugir. Parecia ter gostado de mim e demonstrava muita confiança.

Peguei o pássaro na mão, fiz um carinho em sua cabeça e confortei-o, dizendo que tudo ia ficar bem e que cuidaria dele com muito amor. O pássaro retribuiu o meu gesto e roçou suavemente a sua cabeça nos meus dedos olhando para mim como se agradecesse. Em seguida emitiu um som meio tímido que me fez rir. Eu não entendia a linguagem dos pássaros, mas percebi que não era somente um obrigado. Era mais do que isso. Tratava-se do início de uma relação.

Fiz uma tala para sua asa, arranjei uma caixa para que ele se abrigasse e o alimentei cuidadosamente.

O tempo foi passando e nos tornamos grandes amigos. Não grudados o tempo todo, pois eu tinha os meus afazeres e ele, os dele. Mas guando pudíamos, estávamos juntos. Faziamos companhia um para o outro e gostávamos muito disso.

O tempo passou e o pássaro foi ficando bom. A asa sarava bem depresa. Mas eu percebia que de vez em quando ele tinha vontade de partir. Às vezes até me bicava com força, o que me machucava. Mas logo em seguida chegava bem sorrateiro dando carinho. Parecia até que queria fazer com que eu o enxotasse dali. Assim não caberia a ele a decisão de ir embora.

Eu entendia a liberdade dele e o deixava livre para fazer o que quizesse. Quando chegasse a hora de ir, eu saberia aceitar. Poderia, é claro, não deixá-lo ir. Era só prendê-lo em uma gaiola. Mas isso nunca tinha passado pela minha cabeça. Viveríamos juntos se isso fosse bom para os dois.

O tempo passou até que ele ficou completamente curado. Começou a treinar pequenos vôos em volta da casa demonstrando que logo estaria completamente restabelecido. Eu esperava que ele ficasse. Afinal eu podia dar a ele tudo o que precisava. Água, comida, um lugar quente e seguro para dormir, carinho e amor.
Mas, como é comum entre os pássaros, ele tinha outras necessidades. Ali não era o seu lugar. Por mais que gostasse de mim, o seu mundo era outro e sentia fortemente o desejo de ir. Mas para ele, eu sentia, era muito conflitante. Ele ensaiava a partida voando para as árvores próximas mas logo regressava para junto de mim. Pousava no meu ombro e começava a bicar o meu pescoço e o meu rosto e depois abaixava sua cabeça pedindo carinho.

Eu cheguei a acreditar que ele não iria nunca. Embora ele conversasse sempre comigo, muita coisa que dizia eu não compreendia. Sempre ficava faltando alguma coisa no nosso relacionamento. Pertencíamos a mundos diferentes e de linguagens e valores diferentes. Poderíamos sim, viver sempre juntos, mas algo dentro dele o forçava a tomar uma decisão.

Certa manhã, como aquela em que chegou, ele ficou muito calado. Não cantou e ficou num canto junto à goiabeira, por bastante tempo. Depois se agitou e bateu muito as asas, bicou o tronco da árvore e voou em volta dela demostrando angústia. Depois, veio até onde eu estava sentado, pousou no livro que eu estava lendo e se aninhou junto ao meu coração. Ficou instantes assim. Olhou depois para mim, fechou os olhos e saiu voando para longe. Pareceu-me que voava de olhos fechados, pois passou muito rente ao tronco da goiabeira. Voou até que o perdi de vista.

Passou algum tempo sem que eu tivesse notícias dele, até que numa certa manhã ele apareceu. Posou no meu ombro e bicou meu pescoço. Alinhou-se junto ao meu coração e depois de um certo tempo foi embora voando.

Ele não disse, mas eu entendi: “Gosto muito de você e te quero muito bem. Virei todas as vezes que puder para visitá-lo. Não se esqueça de mim. Eu sinto muitas saudades”. Entendi que era algo assim que ele gostaria de ter dito para mim. Mas, sabe como são os pássaros! Às vezes falam muito. Às vezes nós os entendemos tão pouco.

 
 
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