CONTOS de Carlos Kaliban
O PEQUENO PASSARINHO


Certa vez, uma ave construiu o seu ninho nos galhos secos de uma árvore. Como essa ave era muito precavida e zelosa, procurou dar a maior proteção possível àquele ninho e aos futuros filhotes que ali nasceriam.

Cuidou para que o ninho fosse bastante protegido pelos galhos e assim o construiu, deixando apenas uma pequena passagem que mal cabia para ela passar. Além disso, fez com que a passagem não fosse nem curta nem reta, para evitar que os filhotes pudessem ficar ao alcance das patas dos predadores.

Assim que o seguro ninho ficou pronto, a ave botou três ovos e passou a chocá-los com muito orgulho.

Certo dia, algum tempo depois que ela tinha começado a chocar os ovos, sentiu fome e saiu para comer alguma coisa. Passara muito pouco tempo fora do ninho, e quando voltou, notou horrorizada que um dos ovos tinha sumido. Saiu do ninho e procurou à sua volta com muita ansiedade. Logo identificou, lá no chão, pedaços da casca do ovo desaparecido. Algum predador tinha conseguido chegar até o ovo, de alguma forma. Ela fez uma inspeção rigorosa e descobriu uma falha na sua proteção. Tratou então de fazer um reforço com galhos, que cuidou para que ficassem bem trançados. Continuou a chocar com carinho os dois ovos que restaram.

Algum tempo depois, ela sentiu novamente fome e saiu do ninho para comer uma ou duas minhocas e voltar rapidamente, pois, nunca se sabe, “o seguro morreu de velho”. Mas, apesar de todos os cuidados que teve, não pode evitar que o predador conseguisse furtar o segundo ovo.

Que tristeza! Quanta decepção e frustração. Onde tinha falhado? Não parava de se questionar e de se culpar. Inspecionou a proteção do ninho e descobriu o ponto fraco. – “Foi por ali o predador enfiou a sua pata e conseguiu retirar o ovo”. Desta vez, não só reforçou a região por onde aconteceu o ataque, mas cuidou para que todo o restante, definitivamente ficasse bem seguro. Afinal, só restava um ovo e nada de ruim poderia acontecer com ele.

Mesmo com a certeza de que o ninho estava seguro ela não saiu mais para comer até que o filhote nasceu.
A natureza tem seus caprichos. Os galhos secos no interior dos quais tinha sido construído o ninho pertencia a uma árvore velha e doente. O galho mais grosso onde estava apoiado o ninho começava a apodrecer e larvas apareciam ao alcance do bico da mamãe-ave, cujo trabalho consistia em apenas colocá-las carinhosamente no interior da garganta do filhote que tremia com bastante emoção nesse momento milagroso.

O tempo passou e o filhote cresceu. A mãe não saia de seu lado, pois também se alimentava das larvas. Entretanto a árvore estava quase morta e e as larvas tornaram-se cada vez mais escassas, até que desapareceram.

A mamãe-ave tomou contato com outra realidade. Seu filhote já estava crescido o suficiente para aprender a voar e providenciar o seu próprio alimento. Mas ela tinha o instinto exagerado de proteção e decidiu que não deveria ainda expô-lo ao risco. Resolveu então sair para procurar alimento e assim mantê-lo seguro o maior tempo possível. Ela sabia os riscos que corria, pois os predadores observavam o movimento das presas para verificar qual era o momento mais adequado para o ataque.

O filhote seguia a mãe até o início da passagem de acesso ao ninho propriamente dito. Dali ficava acompanhando os movimentos da mãe com muito interesse. Embora procurasse aprender alguma coisa através das ações da mãe, uma ação que ele não acreditava ser possível de realizar era a de voar.

Certo dia, quando sua mãe revolvia a terra em busca de alimento, uma raposa se aproximou sem emitir nenhum ruído. O filhote a tudo observava sem saber avaliar o perigo. Nunca tinha visto uma raposa e nada sabia sobre elas, nem ao menos que devoravam aves. O que ele viu em seguida foi uma lição muito dura. Ao virar a página do livro da vida ele só viu o branco da ausência da mãe e do alimento.

Os dias se passaram e a fome chegava ao nível insuportável. O medo do filhote era enorme e praticamente o imobilizava. Ele precisava comer, mas como sair dali. Só voando era possível. E ele não podia voar. Sentia muito medo e sentia-se inferior. Porque só ele entre os pássaros não podia voar? Por que sua mãe desistiu de ensiná-lo quando parecia ser o momento certo. O que seria dele sem sua mãe? Como enfrentar o mundo perigoso lá fora que esperava para causar-lhe mal? Como um ser tão pequeno poderia se proteger de perigos e predadores tão grandes e poderosos?

No momento em que essas dúvidas e certezas o fazia muito triste e tomado pelo pânico, eis que um dos mais perigosos predadores estava diante da passagem de acesso ao seu ninho. Era uma “pintada” temida pela sua força, pela sua astúcia e pela sua determinação.

A onça tinha subido na árvore seca e morta e analisava como poderia chegar até o ninho. O ninho parecia um quebra-cabeças de tão intricados que tinham sido colocados os galhos. Como não era animal de desistir, a onça ficou com muita raiva e esse sentimento a tomou inteiramente. Concentrou então toda sua força em uma só patada e destruiu toda aquela proteção, já seca e frágil, apesar de parecer forte. O ninho foi igualmente esfacelado e os pedaços foram arremessados para todo lado. O filhote também se viu no ar, sem nada sólido debaixo de seus pés. Nesse momento, devido ao choque causado pela situação inesperada e de grande tensão, o pequeno pássaro se viu a voar sem saber como, e quando a onça saltou por cima dele não conseguiu capturá-lo, pois pequenino que era e rápido em sua forma de voar, conseguiu se salvar.

A situação inesperada ensinou ao pequeno pássaro que não existem inferiores ou superiores entre os seres que foram criados. Alguns têm qualidades que faltam aos outros, e o que parece ser qualidade em alguns em determinadas situações, pode ser deficiência em outras.

O pequeno passarinho aprendeu que podia observar os predadores antes que estes o observassem. Ele descobriu que podia despistá-los com o seu vôo rasante ou zigzagueando entre os galhos das árvores. Ele descobriu que era um ser forte, astuto e determinado, tal como a onça. Ele descobriu o seu verdadeiro valor e o aprendizado veio através de uma circunstância. E essa circunstância foi seu mestre.

 
 
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