CONTOS de Carlos Kaliban
O PRISIONEIRO

Era um prisioneiro. Fora colocado naquela cela havia muito tempo. Ele nem lembrava quando. Também não se lembrava o motivo.

A cela tinha uma porta de grades grossas e reforçadas. Nela, uma enorme fechadura, daquelas antigas que eram abertas por chaves enormes. Na parede de pedra havia uma janela, também com grades. Na altura do chão existia um buraco, cavado ao longo do tempo por ratos que por ali entravam em busca de alimentos. Pássaros também costumavam por ali passar para fazer ninhos nos ninchos entre as pedras da parede. Galinhas também eram frequentadoras da cela onde depositavam seus ovos. O chão era de terra e as sementes trazidas pelos pássaros caiam nela e germinavam no solo húmido.

Com o passar dos anos o prisioneiro foi tendo perdas. Fazia tempo que não tinha companheiro de cela e o carcereiro que o alimentava nunca mais apareceu. O prisioneiro vivia só, trancado na cela e no seu pé esquerdo estava presa uma corrente suficientemente grande para que pudesse se movimentar.

Alimentava-se dos ovos das galinhas e dos frutos das pequenas árvores que possuía no interior da cela. Tinha uma laranjeira e um tomateiro. Às vezes caçava uma ave distraída, que preparava ao calor dos raios do sol em uma espécie de panela de pedra. Outras vezes se servia de um rato que aparentasse ser bem limpinho. Bebia a água que gotejava do teto e que ele não via de onde vinha, mas que colhia em uma velha caneca de cobre deixada pelo carcereiro há muito tempo atrás. As coisas das quais precisava se livrar, eram jogadas pelo buraco junto ao chão e rolavam encosta abaixo.

A cela era uma das muitas existentes em um presídeo localizado em uma ilha. Fazia tempo que não escutava as vozes dos outros prisioneiros. A sua situação era inusitada, mas ele não questionava a razão daquilo e do que poderia estar acontecendo. Mantinha-se vivo simplesmente esperando que em algum momento, alguém pudesse aparecer. Sua aceitação era total. Sua entrega também. Aquela era sua casa e aquela era sua vida.
Os anos passaram e o prisioneiro envelheceu. Sua memória foi aos poucos se apagando ao ponto de nem lembrar mais do seu nome. Sua mente se esvaziou por completo. Nenhum conflito e nenhum desejo. Vivia em paz consigo mesmo sem saber que embora prisioneiro, tinha conseguido um grande tesouro que poucos possuíam. Vivia em seu interior. Conhecia a si mesmo como ninguém. Tinha alto controle e sentia uma grande harmonia diante da vida. Embora restrito naquele espaço pequeno e com deficiência na alimentação, tinha uma excelente saúde. Quase podia viver apenas do ar que respirava e da luz que abundantemente entrava pela janela e preenchia sua cela.

Certo dia, logo depois do amanhecer, escutou barulhos que vinham do lado de fora. Aos poucos os ruídos foram tormando forma e ele reconheceu o som de passos. Logo depois escutou vozes. Percebeu então que alguém gritava: - “Tem alguém aí?” Um eco repetia a pergunta algumas vezes mais. Pensou em responder, mas não conseguia emitir sons. Já havia esquecido como falar. As vozes foram se aproximando até que duas pessoas chegaram diante da porta de ferro.

- “Não acredito! Aqui tem um homem! Está vivo e parece bem”. Pucharam a porta de ferro e ela se abriu rangendo. Não estava trancada. Chegaram até o homem para soltá-lo da corrente e viram que o cadeado tinha praticamente se desmanchado pela ferrugem. Abriu facilmente sem a chave.

Libertaram o prisioneiro que não estava preso. Alimentaram-no e depois jogaram um balde de água nele. Assim ele tomou um banho, coisa que não fazia há muito tempo. Depois disto, levaram-no para fora e fizeram uma série de perguntas, entre elas:

- “Este presídio foi abandonado há mais de 15 anos. Como você não percebeu que podia sair daqui facilmente?”

O prisioneiro, agora em liberdade, respondeu. De início com grande dificuldade, mas aos poucos sua voz foi retornando:

- “Descobri que a verdadeira liberdade existe dentro de mim. Isto passou a me dar tanta paz que não queria que nada mudasse. Passei a ser uma ótima companhia para mim mesmo. Aos poucos esqueci até dos conflitos que tinha lá fora. Lembro-me vagamente de ter tido uma vida de luta e sofrimento. Aqui tudo deixou de existir. Na verdade, nada fiz para que me colocassem aqui. Fui injustiçado, traído e roubado. Aqui, só recebi! A luz do sol, as gotas de água da chuva, os ovos das galinhas, as brincadeiras dos camundogos, o enorme silêncio e todo o tempo que quisesse. Fora daqui, hoje, existe apenas o desconhecido. Espero ter encontrado a paz e a harmonia para que possa viver lá fora sadiamente. Por mais que possa parecer estranho para vocês, eu sou hoje um homem sadio. Bem diferente do doente que aqui entrou. Nunca tentei abrir a porta e nem me livrar da corrente. Ficar aqui, foi e é segurança. Sair para o mundo de vocês é um risco. Que Deus me ajude!”

 
 
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