CONTOS de Carlos Kaliban
O RABO DO CÃO

De início era uma pessoa muito otimista. Conseguiu o primeiro trabalho em uma empresa bastante conceituada. Em pouco tempo foi promovido e seu salário aumentado. Sua carreira prometia, o que não era surpresa. Era dedicado, eficiente, excelente profissional, com facilidade nos relacionamentos e ambicioso o suficiente para galgar novos postos sem pisar em ninguém.

Comprou um imóvel próprio, casou, e logo vieram os filhos. Tudo de forma tranqüila e sem grandes apertos financeiros.

O tempo passou e a situação econômica do país mudou. Aquilo que era ausente de preocupação passou aos poucos a dar sinais de alarme. O salário foi congelado. Os preços subiam disfarçadamente, na calada da noite, ocultos nas sombras e sem serem percebidos pelos índices oficiais.

A situação tornava-se muito difícil. A cada mês se comprava menos. O orçamento doméstico ficou difícil de ser administrado. Ele já não sabia o que fazer.

Como o salário que ganhava não era suficiente para pagar as despesas, o jeito foi arranjar outro emprego, o que lhe ocupou as noites.

Nos primeiros meses até que deu para equilibrar o orçamento, mas com o passar do tempo a situação voltou a ser difícil.

Já não tinha mais tempo disponível para o lazer e para a família.

Arrumou então outro emprego, desta vez no final de semana.

Durante os primeiros meses até que resolveu, mas depois voltaram os mesmos problemas, o que refletir sobre o assunto e verificar que se tratava de um círculo vicioso.

Sua situação era a de alguém que perseguia um objetivo mas que, por mais que se esforçasse, não conseguia alcançá-lo. A cada novo dia, eram acrescentadas novas dificuldades.

Muito desanimado, sentou na escadaria da catedral e num relance de sua imaginação, como se condensasse toda a sua problemática em uma só imagem, intuiu o seguinte:

"É como um cachorro correndo atrás do próprio rabo, só que conforme o tempo passa, o rabo fica mais curto!".

Era necessário, sem dúvida, outra imagem, mais positiva. Algo que fosse mais adequado a tempos tão difíceis, onde a criatividade passava a ser fundamental.

 
 
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