CONTOS de Carlos Kaliban
O TESOURO DO BAÚ

Um velho homem, com longas barbas brancas e vestindo um manto bem desgastado pelo tempo, seguia por uma estrada deserta conduzindo uma carroça puxada por um velho cavalo. Na carroça ele só levava um baú e nada mais.

Em certo momento foi cercado por assaltantes que lhe disseram: -“Passe rápido o que tiver de valor, que não temos tempo a perder.” O velho simplesmente olhou para eles sem dizer uma só palavra. –“Rápido! Abra esse baú. Deve ter uma riqueza dentro dele!” O velho abriu a tampa e os assaltantes olharam o seu conteúdo com desinteresse. Imediatamente, se voltaram para a direção de onde tinham vindo e desapareceram rapidamente a galope. O velho ficou sozinho porem com a certeza de que poderia atender aos assaltantes com o que levava.

Mais adiante, um grupo de mendigos famintos fez sinal para o velho. Ele parou e disse que não levava comida, mas conduzia algo que com certeza os alimentaria. Os mendigos apontaram para o baú. O velho abriu a tampa e eles olharam lá para dentro. Não demonstrando interesse, se afastaram em silêncio sem que o velho tivesse tempo de dizer uma só palavra.

Depois de uma ponte, uma rica carruagem estava parada na estrada com a roda quebrada. O cocheiro fez sinal para que ele parasse e perguntou ao velho se podia ajudar. O velho disse que não poderia ajudar naquela situação. Um nobre rico, perguntou sem sair da carruagem: -“O que tem dentro do baú. Seria útil para mim? Preciso seguir o meu caminho.” O velho acenou com a cabeça que sim e em seguida abriu a tampa do baú. O Nobre olhou e também não se interessou. O rico homem fez então sinal para que ele se afastasse depressa. Ele assim o fez sem insistir na sua boa intenção.

O Velho seguiu viagem. Em frente a um grupo de casas algumas crianças brincavam. Ao ver o velho se aproximando correram até a carroça e pediram por doces ou brinquedos. O velho fez um sinal com os braços e os ombros que queria dizer que não tinha o que eles queriam. As crianças apontaram para o baú e perguntaram: -“O que tem aí?” Mais uma vez, o velho abriu a tampa do baú. As crianças olharam para dentro dele e fizeram caras de quem ainda não sabia que brincadeira era aquela. Riram uma para outra e saíram correndo de volta à brincadeira. Mais uma vez, o velho ficou calado e seguiu o seu caminho.

Anoitecia. O velho parou a carroça na beira de um riacho. Tirou o baú da carroça e colocou no chão. Desatrelou o cavalo soltando-o para pastar. Em seguida, colocou as duas mãos sobre o baú. Do corpo do velho fluiu uma luz. A luz envolveu o baú e penetrou no seu interior. O baú começou a se transformar e aos poucos foi tomando a forma de um castelo. Quando a construção se fez completa, ele entrou e acendeu a lareira. Tudo o que precisava estava ali. Era a sua cabana e o seu tesouro. Todo o seu tesouro viajava dentro dele mesmo. Tudo o que precisava para viver. O baú, na verdade, sempre esteve vazio. Era apenas matéria a ser transformada.

Comeu alguma coisa e foi dormir em uma rica cama. Antes de dormir fez sua oração agradecendo por ter aquilo que as pessoas não davam valor nem importância. Durante a noite viajou para um lugar distante. Lá, outro velho o recebeu e pausadamente lhe contou novas histórias, histórias estas que serviam para lhe dar cada vez mais riqueza. Uma riqueza que está além da forma, do lugar e do tempo. Uma riqueza que ele sempre queria passar adiante, mas que ninguém estava interessado.

Mas ele sabia, que em alguma curva da estrada, alguém o abordaria dizendo: -“Velho homem! Estou aqui! Conte-me uma história que me faça sorrir como você!”

Na manhã seguinte, o velho continuou a sua viagem. Subiu na boléia. Balançou as rédeas que fizeram o cavalo relinchar de felicidade. A carroça começou a ser mover novamente transportando o velho e seu tesouro. Na carroça também estava o baú. Vazio! Como sempre!

 
 
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