CONTOS de Carlos Kaliban
PAIXÃO ANIMAL

Ela era uma cadelinha de estimação. Vivia em uma rica casa onde era tratada com todo carinho por uma linda dona. Além de linda, sua dona era uma mulher muito amada. Seu companheiro a tratava com muito carinho e dedicação. Todos os dias a pequena cadelinha presenciava cenas de carinho, amor e paixão. Como ela gostava de observar aquilo.

Aos poucos, foi alimentando o sonho de também ter um companheiro. Ela ficava horas e horas imaginando como seria o seu eleito. Em um momento ele era alto e esguio, em outro momento gordinho e da sua altura. Mas uma coisa ela fazia questão: que ele fosse de raça que nem ela, que habitasse também uma linda e rica casa e que fosse muito bem adestrado. –“Falta de educação em um companheiro, não! Isto jamais!” dizia ela para si mesma.

Mas como fazer? Como encontrar o seu companheiro? Estava sempre em casa. Quando saia era para ir ao veterinário ou para se embelezar em uma “Pet Shop”. Será que iam providenciar isto para ela? Não! Não era uma boa idéia. Ela queria escolher o seu próprio companheiro. Por que não? Os seres humanos não fazem isso, por que ela não poderia fazer?

O tempo passou e a sua vontade aumentou. Mas ela sentia que o destino ia dar uma ajuda. E, em uma certa manhã, deu! –“O portão está aberto! Não acredito! Nunca o deixaram aberto. É o destino agindo, claro!” Disse a sonhadora cadelinha. Sem olhar para trás ela passou por aquele “portal” rumo à liberdade, e só pensava em ser feliz.
Andou um pouco pela calçada até que chegou a uma praça. Lá começou a observar os vários cães que ali estavam. Olhou um por um. Todos estavam presos às suas coleiras. Eram lindos cães, todos de raça. Lindos... , mas que não faziam seu coração bater mais rápido. Ela então escutou a freada de um carro e em seguida o grito do motorista: -“Sai da rua seu vira-latas maluco! Quer morrer?”

Olhou e viu um cãozinho lindo, do tipo esperto e livre. Sentiu o seu coração bater diferente, como... Como se quisesse sair do seu peito e ir ao encontro do “maluco”. –“Caramba! Disse ela! Acho que estou amando! O amor deve começar assim, com uma sensação que não se entende.” Ela então começou a construir histórias e a ver um futuro de felicidades e muitos filhos, enfim uma maravilhosa família. Mas de repente um pequenino grande detalhe foi percebido: -“Ele é um vira-latas! Nada a ver com os meus sonhos!” Nesse momento o cãozinho a viu e veio até ela. Deu uma volta ao seu redor, abanou o rabo com alegria e sorriu da forma que os cães fazem. Em seguida a convidou para uma volta, para conhecer as redondezas.

Ela aceitou com certa timidez, mas não deixou que ele percebesse a sua inexperiência. Passaram um tempo passeando juntos e se conhecendo melhor. Saíram da praça, indo passear em um bosque onde puderam ficar a sós. A essa altura ela já estava completamente apaixonada pelo simpático, atraente e conquistador cãozinho. Nem é preciso entrar em detalhes para contar o que aconteceu em seguida. Para ela era simplesmente uma coisa doida, mas uma coisa oriunda da paixão e do amor. Para ele, e demonstrava por sua segurança, era apenas um momento de prazer, simplicidade e realização.

Depois que terminaram, ficaram alguns momentos juntos, ligados de uma forma que mesmo que quisessem seria muito difícil decidir qualquer coisa. Mas assim que ficaram à vontade, o cãozinho saiu correndo sem ao menos olhar para trás, atravessou a praça para em seguida ir para o outro lado da rua zigzagueando entre os carros. Ela escutou outra freada e mais uma vez o xingamento de um motorista: -“Tá desiludido da vida, cão doido? Quer morrer?” Atingindo a calçada, ele também não olhou para trás e seguiu feliz rua abaixo.

A cadelinha, inteiramente confusa com os seus sentimentos, lembrava do que tinha acontecido e de como tinha sido bom. –“Mas e o amor? E os seus sonhos? E as promessas e juras que esperava escutar, onde ficaram?” Mas, como sabia de onde tinha vindo e tinha para onde voltar, aprumou-se, sacudiu os pelos e saiu do bosque sem também olhar para trás. Era apenas um lugar, e certamente não era o seu lugar.

No meio da praça, rumo à sua casa, ela parou. Pensou por uns instantes no amor, em desilusão, em perdas, mas logo concluiu dizendo: -“Larga de ser boba! Foi apenas sexo! E foi muito bom, lembre-se sempre disso!”

 
 
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