CRÔNICAS de Carlos Kaliban
A ESCADA

Certo homem passava por momentos difíceis em sua vida. Algumas coisas tinham necessidade de serem mudadas. Por mais que se perguntasse como, não obtinha respostas para suas perguntas.

Soluções, o que não pagaria por elas! Não com dinheiro, é claro! Pois dinheiro era algo que via passar distante dele, embora existisse em abundância orbitando em pessoas próximas.

Sua paixão era pela pintura. Era possuidor de uma coleção de quadros que tinha sido obtida ao longo da vida com muito esforço.

Naquele dia ameaçava chover muito forte. O céu estava negro e o vento mal acabava de se acalmar após um forte acesso de fúria. Com muita preocupação o homem notou que as telhas do seu telhado tinham se deslocado pelo forte vento. As telhas, os quadros, a chuva chegando e...

Algo precisava ser feito com urgência. Era necessário que o telhado fosse consertado para evitar que a água penetrasse no interior da casa, botando a perder tudo aquilo que era muito importante para ele.

Como chegar até o telhado? No interior da casa não havia nenhum acesso para o mesmo. Teria que ser feito pelo lado de fora. Mas como? Nem uma escada ele tinha!

De repente, um barulho em frente da casa do lado. Era um caminhão de mudanças começando a descarregar. Um novo vizinho estava se mudando.

Mas que coincidência! Era um amigo de infância. Amigo de longa data, daqueles que sabem ser realmente amigo. Lembrou de como já tinha sido ajudado por ele anteriormente, e de como o tinha ajudado.
Mas, por coincidência maior ainda, ele tinha uma escada.

O homem foi em direção ao amigo e se cumprimentaram de forma efusiva e com muita alegria. De fato, era muito boa aquela aproximação. Ninguém melhor para ser seu vizinho.

Aquele fato indicava que as coisas poderiam mudar. Alguns dos seus problemas piscavam avisando que pressentiam soluções próximas. Uma parceria poderia ser ótima. Quando existe a cooperação entre duas pessoas, tudo passa a ser mais simples para ambos.

O homem pediu emprestada a escada por um momento. Disse que era para resolver um problema crucial.

O amigo perguntou que tipo de problema era.

O homem resumiu contando uma breve história de suas atribulações.

O amigo ficou espantado pelo fato de que era ele quem iria subir para fazer o conserto. Logo ele, uma pessoa fina conforme demonstrava a sua dedicação pelas artes.

O amigo aconselhou que ele não fizesse aquilo, pois era muito perigoso. Deveria contratar um profissional.

O homem justificou que estava acostumado àquele tipo de serviço e que não iria pagar alguém para fazer, ficando ao lado observando.

Com relutância o amigo emprestou a escada.

O homem subiu na escada e começou a consertar o telhado.

De repente escutou o amigo dizer: “Eu também preciso consertar o meu telhado antes da chuva. Descobri que o vizinho do outro lado trabalha em obras e pode fazer isso agora. Como é grande a minha pressa vou precisar da minha escada de volta, agora! Estou levando!”.

O homem nem teve tempo de falar nada, pois a escada foi tirada debaixo de seus pés.
Ele caiu lá de cima e se arrebentou todo.

Existem muitas maneiras de se obter uma escada de volta. Sem dúvida, aquela não era a mais indicada.

A chuva choveu, os quadros se danificaram, e ele foi para o hospital. Não pode trabalhar nos dias seguintes e o patrão o descontou. O prejuízo foi muito grande.

Mas o amigo, muito amigo, comentou com alguém: “Eu bem que avisei. Se fosse um profissional teria arranjado um jeito qualquer de se agarrar e não cairia”.

Alguém perguntou ao homem tempos depois: “Depois do acontecido vocês continuam amigos?”

O homem respondeu: “Sim, é claro que continuamos amigos. Uma amizade de tanto tempo não poderia terminar por um episódio assim, não acha?”

“Sim, posso até aceitar, mas que atitude você tomou?”

“Diante do acontecido, é claro que eu tomei uma atitude”.

“E qual foi?”

“Tomei uma grande decisão: Nunca mais pedirei uma escada emprestada”.

 
 
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