CRÔNICAS de Carlos Kaliban
CERCAS E MUROS

Remexendo o Fundo do Baú encontrei lembranças de minha infância, mais precisamente de como aprendi, de forma bastante dolorida, para que servem as cercas e os muros.

Era uma criança livre, pelo menos nas férias escolares quando era movido da cidade grande onde morava e instalado por uns tempos na fazenda de um tio, cuja paternidade provisória lhe era dada e por sua vez recebida de muito bom grado.

Na casa em que morava durante o ano escolar, existiam muros e grades. Nunca tinha questionado qual a função delas. Para que exatamente serviam e qual era o seu significado real. Simplesmente existiam quando fui para ali, logo ao nascer.

Na fazenda eu podia ir a qualquer lugar. Nunca me impuseram limites. As cercas serviam para separar o gado das plantações e eu, menino que era, aprendi a passar por elas abaixando um arame farpado com uma das mãos e levantando o arame imediatamente acima com a outra mão. Em seguida, passava uma perna para o outro lado da cerca colocando o tronco na posição horizontal e lentamente o movia na direção para onde tinha movido uma das pernas, passando o peito rente ao arame farpado abaixo de mim. Depois de passar o tronco era só passar a perna que ficou e, ufa!, estava do outro lado. Era uma operação delicada que exigia muita atenção para não se arranhar. “Podia pegar tétano!”, diziam!

Certa vez, observando que os arames, em conjunto com o moirão, formavam uma escada - descoberta brilhante aos 11 anos de idade – eu quis facilitar as coisas. Simples! Era só subir de um lado e descer de outro. Assim eu não me arriscaria a um arranhão que poderia resultar até em tétano, doença que eu não tinha a mínima idéia do que se tratava, nem como se tratava. Mas do jeito que falavam não podia ser boa coisa! Mas aprender sozinho tem os seus riscos, e às vezes grandes riscos.

No alto da cerca, apoiando os dois pés no último arame, fiquei de pé para girar o corpo e começar a descer do outro lado. O moirão da cerca, como é normal, era pontudo como a extremidade de um lápis, aquela que escreve,claro! Eu diria hoje que era muito, muito pontudo! Só a lembrança disso me dá calafrios... Quando fiz o movimento para girar, o grampo que prendia o arame farpado se soltou do moirão e eu caí lá de cima.

No chão, sem nenhum arranhão, eu entendi de imediato o risco pelo qual passei. Caí em pé um pouquinho pra frente da cerca. Uma farpa do arame apenas tocou a minha camisa rasgando-a ligeiramente. Olhei para a ponta do moirão que continuava lá, perfilada e apontando em direção aos céus, como se dissesse: “Agradeça ao homem lá de cima que te empurrou para frente, não deixando que você caísse verticalmente. Agradeça e muito!”. E isso, juro que fiz, sozinho e por muito tempo, prometendo a mim mesmo não contar para ninguém como aprendi a não “inventar moda”, como diziam. Bem, não deixei de inventá-las, porém passei a ter um pouco mais de cuidado. Talvez a cerca quisesse chamar a minha atenção para ela. Talvez pretendesse me avisar que ela era algo mais do que eu, nos meus onze anos percebia.

Passando de cerca em cerca, de um piquete para outro, através dos pomares e das plantações, sem ter idéia de onde acabava a fazenda de meu tio, só conseguia perceber que as cercas tinham significado pela sua utilidade. Separar o gado das plantações e isolar um piquete em que o capim estava crescendo. Isolar as vacas, os bezerros e o touro que pastavam em um outro piquete onde o capim era farto.

Um ou dois anos depois, cheguei à janela do meu quarto na casa da cidade grande e vi um moleque, em cima do telhado da garagem, soltando pipa. Como ousou pular a grade, subir no muro e ir para cima do telhado da garagem... da “minha” casa? Como não respeitou os limites da propriedade? Como invadiu sem ao menos pedir licença?

Enfurecido, corri para a garagem e num salto apoiei uma das mãos na grade, a outra no muro, para assim subir no telhado e colocar o moleque, que aparentava 7 ou 8 anos, para fora, aos tapas.

O meu movimento parou quando senti a dor e de imediato percebi que um dos cacos de vidro cimentados no topo do muro para que ninguém subisse por ali estava enfiado dentro da minha mão. Retrocedi o movimento voltando ao chão, completamente esquecido do menino e da pipa, que nesta hora não fazia a mínima diferença. Mantive a mão fechada para estancar o sangue até meus pais voltarem da rua onde tinham ido fazer alguma coisa que, devido às circunstâncias, eu nunca fiquei sabendo. Eles pediram para eu abrir a mão para poderem examinar o machucado. Eu disse: “Só abro no hospital!”. Assim foi feito, e o médico que me atendeu comentou que “milagrosamente” o caco de vidro não tinha cortado os tendões de dois dos dedos entre os quais o vidro entrou.

Eu tinha aprendido assim o conceito de propriedade, onde os muros e cercas impõem limites aos estranhos. Não podemos ir e vir sem considerar isso. A dor me ensinou alguma coisa sobre isso. Um pouco do por quê os homens se matam ou morrem por sua propriedade.

Aquele menino com a pipa era eu, alguns anos atrás na fazenda de meu tio, livre e fazendo o que gostava de fazer. Talvez também o menino tenha aprendido, com o susto, alguma coisa que pudesse ser útil em sua vida.

 
 
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