CRÔNICAS de Carlos Kaliban
FORMA DE PARTIR

Ela era uma mulher forte e muito crítica.Ele era um romântico. Tinha problemas de coração e sua saúde era um pouco fraca.

Tinham brigado. Ela não falava mais com ele. Ele tinha pedido perdão por diversas vezes. O perdão não tinha sido dado. Seu coração sofria.

Nas noites anteriores ele falara para ela coisas e coisas lindas, saídas de seu coração. De como ela era importante, de como ela fazia parte de sua vida, de como ele aprendia a ser um homem melhor e muitas coisas mais. Como era habitual, ela deixara de responder ou comentar. Apenas lhe dava o silêncio. Um silêncio que o feria, mais que uma punhalada no peito.

Ele resolveu ficar também em silêncio. Como se comunicar com quem não queria escutar nem responder?
Naquela manhã ele estava sentado em uma poltrona lendo um livro.

A mulher reclamava da vida, dos seus problemas, das suas dores, dos seus sacrifícios, do relacionamento e dele. Mas estas reclamações, críticas e comentários só estavam em sua mente e na sua imaginação. No silêncio ela achava que estava comunicando muito para ele. Mas ela queria respostas às suas perguntas silenciosas.

Depois de muito falar desta forma silenciosa e sem obter resposta alguma, ela chegou por trás dele e empurrou seu ombro com a mão, exigindo uma manifestação. A cabeça dele pendeu para o lado e ficou imóvel. Aí ela percebeu que ele estava morto.

De imediato e não demonstrando sentimento, ela então disse: -“Francamente, você foi capaz de morrer para não responder minhas perguntas? Que tipo de homem você é? Estou pasmada com as suas atitudes. Foi dessa forma que você resolveu sair da minha vida?”

Depois ela percebeu que na mão dele, a que portava a aliança, tinha um papel com algo escrito. Ela pegou o papel, amassou-o e jogou no lixo, sem ao menos ler o que nele estava escrito.

Dias mais tarde no “Lixão”, uma “catadora” acha uma folha de papel amassada. Um impulso lhe chega à mente. Ela interrompe o seu trabalho, pega aquela folha, desamassa-a e lê o que estava escrito:

“Tento falar e você não me escuta. Faço perguntas e você não me responde. Escrevo bilhetes contendo coisas lindas sobre o que sinto por você e sou ignorado. A maioria deles você amassa e joga fora. Francamente, não sei o que você sente por mim. Acho que nunca vou saber. Afinal, expor sentimentos parece ser um sinal de fraqueza e você, acima de qualquer coisa, parece ter obrigação de transmitir fortaleza. Confesso sempre o meu amor e coloco juras eternas de companheirismo e amizade, mas parece que são declarações ridículas, como se fossem palavras ditas em um picadeiro de circo por um triste palhaço. De tudo que disse e de tudo que tentei dizer, resumo todos os meus sentimentos em uma só frase: EU TE AMO E VOU TE AMAR SEMPRE! Amanhã eu vou arrumar a minhas malas e vou embora. Talvez assim eu faça você feliz!
Beijos meu amor!”

Dos olhos da “catadora” rolou uma lágrima. Além daquilo que estava escrito no bilhete ela sentiu que existia uma história por detrás. Uma linda história de amor que tinha terminado. Uma história de encontros e desencontros, mas uma linda história. Uma folha de papel amassada e jogada no lixo, sem nomes ou endereços. Que desperdício! Apenas um bilhete que talvez nem tenha conseguido ser uma real forma de comunicação. Apenas uma energia lançada no espaço e que acabou daquela forma. Ficou triste por aquele homem e por aquela mulher. Olhou para os céus e agradeceu por ser a pessoa quem era, pelo trabalho que tinha e pelo companheiro a quem amava muito e que era por ele amada. Depois riu, lembrando que nunca tinham escrito nada um para o outro. Afinal, mal tinham aprendido a ler e escrever! Apenas diziam o que sentiam, da forma que sabiam: com palavras simples, beijos, carinhos e muito amor, que às vezes pareciam não ter fim.


 
 
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