CRÔNICAS de Carlos Kaliban
O CAIPIRA E AS LARANJAS

Dr. Epaminondas nunca tinha saido do Rio de Janeiro. Nos seus hábitos e costumes estavam incluídos a desconfiança e o medo de ser enganado.

Por ironia do destino, uma carta solicitava a sua presença em São Miguel do Assunçê, localidade da qual nunca tinha ouvido falar. Era à respeito de uma herança de uma tia, que para surpresa dele, nunca soube existir.

Como o assunto era de seu interesse rumou para lá. Depois de muita estrada e muita poeira, pois um grande trecho da estrada era de chão, ele chegou em São Miguel.

Era uma vila pequena. Parou o carro na bomba de combustível e perguntou como encontrar o Coronel Amaral Ratinho.

O senhor que o atendeu disse: -"Eu faço questão de levar o Dr. até lá. É longe e fica complicado explicar. Me dê um tempinho para fechar meu negócio.

Era muito estranho uma pessoa que nunca o tinha visto se oferecer para conduzi-lo a um local distante. Um assalto talvez! Mas antes de qualquer atitude o gentil senhor já estava sentado no carro ordenando simpaticamente: -"Siga em frente, e por favor, não me olhe com tanta desconfiança. Aqui não estamos acostumados com isso".

Foi recebido pelo Coronel Ratinho em sua fazenda. -"Até que enfim o senhor chegou. Foi muito difícil localizá-lo pois tínhamos pouquíssimas informações a seu respeito. Sua tia apenas comentou, e isso foi a 30 anos atrás, que tinha um único parente no Rio. Embora sempre comentasse que eu herdaria a fazenda dela, isso não era certo. Seja benvindo e receba a sua herança", disse com um sorriso.

Epaminondas não acreditava que pudesse existir pessoa tão honesta, mas ficou mais surpreso ainda quando um menino entrou gritando: -"Padrinho! Quer comprar laranjas?" e o Coronel perguntou: -"Quem está vendendo?

-"É o Zeca do Balaio", disse o menino.

-"Então compre 4 dúzias", pediu o coronel.

-"Mas como! Sem ver as laranjas e sem perguntar o preço?" perguntou Epaminondas bastante surpreso.

_"Doutor, aqui nós conhecemos as pessoas. Se é o Zeca quem está vendendo, sei que as laranjas são boas e o preço também. Na sua cidade também não é assim?, perguntou surpreso o coronel caipira ao doutor almofadinha.

 
 
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