CRÔNICAS de Carlos Kaliban
O GUARDA VIDAS

Ele era guarda vidas em uma linda praia. Apesar de estar trabalhando, ele sabia aproveitar o seu dia. Conversava com as pessoas e quando dava jogava um pouco de vôlei com a rapaziada. Era jovem e solteiro. Bem apessoado e com um corpo bastante atlético.

Gostava também das mulheres, as apreciava e as desejava muito. Nada melhor do que estar em uma praia para observá-las. Mas era também muito tímido. Dessas pessoas que não existem mais atualmente.

Havia uma mulher que freqüentava a praia quase todos os dias. Era simplesmente linda. Possuía um corpo escultural e, como eram lindos os seus lábios! Ele a observava sempre, de longe, com o coração a pulsar mais rapidamente. Nunca teve coragem de se aproximar. Tê-la ao alcance do olhar era suficiente para alimentar sua paixão. “Amor ao longe não fere e dura para sempre”, pensava ele em sua solidão.

Ela gostava muito de nadar e sempre enfrentava o mar por mais bravio que se apresentasse. Ele admirava sua coragem e se envaidecia. Era o seu fã número um.

Naquela manhã ele tinha hasteado a bandeira vermelha. O mar estava “cheio” e as correntes se apresentavam fortes e traiçoeiras. Ela, com sua coragem, resolveu correr o risco e intrepidamente mergulhou por sob as altas ondas que quebravam bem junto à areia. Só apareceu bem mais adiante. Ele passou a observá-la, pois era a sua função zelar pela segurança dos banhistas. Depois de certo tempo, ele percebeu que ela tentava voltar e tinha dificuldades. Nadava bastante, mas as correntes a arrastavam de volta assim que sentia os pés tocarem na areia. Mas ela era orgulhosa e incapaz de pedir ajuda. Ele observava e torcia para que ela conseguisse por si própria. Afinal, torcia por ela e não queria interferir. Ficaria, no entanto, bastante atento.

O tempo passou e ela chegou à exaustão. De repente, afundou. O tempo passou. Pouco tempo, no entanto. Ele sentindo o perigo, mergulhou sob as ondas para resgatá-la. Quando colocou a cabeça fora da água, nada viu. Ficou desesperado. Era preciso achá-la e rápido. Ela corria perigo. Conhecedor das correntes naquele local, ele calculou pelo tempo em que estava submersa, onde ela deveria estar. Não tinha muito tempo. Era preciso mergulhar e encontrá-la na primeira tentativa. Estava com sorte! Lá estava ela, abaixo da superfície, já desfalecida e sem movimentos. Ele mergulhou rapidamente, passou o braço esquerdo acima de sua barriga e subiu para a superfície o mais rápido que pode. Daí, dibrando a corrente, saiu rapidamente do mar.

Chegando à praia, colocou-a deitada na areia. Virou-a de lado para que a água engolida saísse de seus pulmões e depois sentiu o seu pulso. Não havia sinal de pulsação. Imediatamente começou uma respiração boca a boca. Com os seus lábios nos dela, soprou o ar por três vezes para seus pulmões. Depois, com as duas mãos, comprimiu o seu tórax também por três vezes e aguardou por um instante. Nada! Repetiu a operação por um número que ele considerou infinito de vezes e nada! Como podia ele tê-la nos braços e tocar os seus lábios no momento que ela estava indo embora? Como podia? Como aquilo que ele tinha muito desejado acontecesse daquela forma tão trágica?

Depois de muitas tentativas, ele desistiu. Olhou para ela com lágrimas nos olhos e depois levantou a cabeça e encarou a multidão em volta, como se pedisse desculpas pelo seu fracasso.

Quando seu olhar cruzou com o de um velho de cabelos brancos que estava bem próximo a ele, ele parou. Calma e pausadamente o velho lhe disse: -“Tente mais uma vez!”. Ele argumentou: -“Impossível! Ela se foi!” O velho disse: -“Não existe o impossível. Faça como eu estou dizendo. Tente mais uma vez!”

Ele resolveu atender ao que o velho estava quase que ordenando. Colocou todas as suas esperanças e toda a sua intenção em um sopro de vida para ela. Alguns segundos se passaram, mas que parecera uma eternidade. De repente ela começou a tossir, abriu os olhos e o olhou como se não estivesse entendendo nada, muito envergonhada de ver tanta gente ao seu redor olhando para ela. Ele lhe disse, segurando suas mãos: -“Agora tudo está bem! Estou aqui cuidando de você. Seja bem-vinda!”

Olhou então na direção do velho para agradecer-lhe o conselho. Não havia ninguém no local onde estava o velho. Ninguém! No céu, uma gaivota branca que voava, emitiu o som que as gaivotas fazem e continuou deslizando serena e em absoluta paz até sumir no horizonte!

 
 
Direitos Reservados