CRÔNICAS de Carlos Kaliban
OS TOLOS

O momento era muito difícil. As pessoas corriam de um lado para o outro dentro da empresa e o burburinho dos boatos fervia. O anúncio de que seriam feitas demissões em massa causava muita especulação.

Entretanto, alguma coisa certamente estava para acontecer. Alguns dados eram reais. A empresa ia mal e todos os funcionários sabiam disso. A folha de pagamento estava muito inchada e as vendas não correspondiam ao esperado, sem contar com a crise externa existente na economia nacional que solapava os salários dos clientes e compradores.

Pelo que parecia, um enxugamento era necessário, talvez até para que a empresa ficasse apta a ser vendida. Quem poderia saber!

Era muito preocupante o fato de que não haviam informações oficiais que tranqüilizassem ou que pelo menos esclarecessem questões que eram colocadas no ar a cada instante.

E os critérios? Será que existiam critérios estabelecidos ou as pessoas que pertenciam ao nível superior das decisões também estavam com suas cabeças em risco. Quem corria mais riscos? Os competentes que tinham os maiores salários ou os notoriamente incompetentes mas possuidores de salários menos expressivos. Ou ainda, os critérios pessoais de simpatia ou antipatia poderiam ser elementos de decisão?

Nos quatro cantos do grande prédio, soluções eram propostas e idéias apareciam. Nervosismo e ansiedade eram as características gerais do ambiente. Todos estavam preocupados, afinal era à respeito dos próprios empregos que os boatos se dedicavam.

Em uma determinada sala, duas pessoas comentavam:

-"Pois é! O que não consigo compreender é que, diante de tais acontecimentos, ainda existam certas pessoas que parecem estar alheias a tudo. Simplesmente não estão preocupadas com nada", comentou o primeiro, tendo o segundo feito o seguinte comentário:

-"Pode ser que são, embora não pareçam ser, pessoas de um grande desenvolvimento espiritual ou coisa semelhante, e estejam praticando um exercício de equilíbrio e harmonia, usando como pano de fundo essa situação toda!.

Um terceiro que passava e escutou o diálogo comentou:

-"Quanto a isso, sou de opinião que um ditado árabe que conheço define bem a situação. O ditado é o seguinte:

"Os Tolos pisam firme onde os anjos nem sequer ousam passar voando".


 
 
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