CRÔNICAS de Carlos Kaliban
UM CÃO CHAMADO DUQUE

Há algum tempo atrás nos mudamos para uma casa no interior e passamos a exercer atividades ligadas a área de Turismo.

A casa tinha um pequeno porão cujo acesso se dava por um diminuto vão que não dispunha de porta. Os limites do terreno eram definidos por cercas vivas. Muitas falhas nessas cercas permitiam se transitar através delas. Era possível passar para o terreno vizinho com extrema facilidade. A frente da casa era alinhada com a calçada e em ambos os lados o acesso era possível por não existir cercas nem portões.

Logo descobrimos que existia na casa um morador. Ele dormia em nosso porão. Era um cão. Normalmente chegava a casa de tardinha. Dormia e saia cedo para a rua. Procuramos saber o seu nome e alguém disse que era Duque e assim passamos a chamá-lo.

Embora fosse oferecida comida, ele raramente aceitava o que era muito estranho para um viralata aparentemente sem dono. Entretanto ele nos tratava com muita alegria e afeto. Com o passar do tempo percebemos que, do mesmo modo que era nosso cão, ele também era o cão de muitas outras pessoas.

Reparamos que nem sempre ele dormia em casa e descobrimos que ele alternava o seu repouso pernoitando em diversas outras casas. Ele tinha uma enorme capacidade de se fazer amigo de qualquer pessoa, acompanhando-a pelas ruas até sua casa sem, sem esperar ou mesmo querer qualquer recompensa. Aquilo para ele era um prazer e imediatamente após chegar à porta de seu acompanhado ele se virava dirigindo-se para outra direção, sem que fosse necessário ser mandado ou enxotado.

Ele tinha vários nomes os quais foram dados pelos seus outros donos. Quando era chamado por qualquer um desses nomes ele atendia com muita alegria.

Aos poucos percebemos que ele trazia turistas ao nosso restaurante, isso confirmado por eles próprios. – Esse cão nos trouxe até aqui. Nós o seguimos sem saber onde ele estava nos levando - Alguns outros comerciantes também tinham notado esse fato. Duque era um Guia Turístico que exercia sua função pelo prazer e pelo amor às pessoas. Não havia o que discutir a respeito disso. Todos eram testemunhas dessa dedicação.

Certo dia, cercamos o terreno e colocamos um portão. Duque sumiu. Pensamos que tivesse acontecido alguma coisa com ele. Talvez morrido, pois já tinha certa idade. Procuramos notícias dele e ninguém sabia informar nada.

Tempos depois estacionamos o carro em um vilarejo próximo e fomos abordados muito efusivamente por Duque. Durante o encontro entendemos que ele nos dizia: - Estou bem! Espero que vocês também. Resolvi mudar de ares e vim morar aqui. Nesse lugar também estou sendo muito útil pelo meu jeito de ser - Nos despedimos e passamos a nos ver quando por ali passávamos.

Ele chegou a nos visitar em nossa casa algumas vezes o que nos deu muita alegria até que perdemos todo o contato com ele, só ficando as lembranças.

Duque parecia quase humano. Era um viralatas puro, inteiramente livre, inteligente, amoroso e nos deu uma lição de vida de enorme importância. Parecia que alguma coisa além o guiava, como se tivesse sabedoria suficiente para descobrir e seguir o “fio invisível da vida”.

 
 
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