ENSAIOS de Carlos Kaliban
A FOLHA DE PAPEL

Com certa frequência me irritava e dizia coisas para alguém que, depois que esfriava a cabeça, me arrependia. Em um desses episódios que infelizmente não foi o último, um senhor que casualmente assistia a cena, dirigiu-se a mim se desculpando com uma folha de papel na mão. Colocou a folha na minha frente pedindo que eu a pegasse e disse:

- Está vendo como ela está lisa? Agora, amasse-a!

Sem entender, fiz o que ele pedia, amassando bastante a folha de papel até ela parecer uma pequena bola.

- Muito bem - ele me disse - agora faça a folha ficar como antes.

Por mais que tentasse, a folha de papel continuava muito marcada com uma série de dobras. Lógico que não consegui fazer com que ela ficasse como antes.


O senhor então me disse:

- As pessoas têm sentimentos. O coração delas é parecido com essa folha... Frequentemente as nossas atitudes deixam impressões que são tão difícieis de serem apagadas, como as marcas feitas por você nessa folha de papel.

Tomando consciência disso procurei a partir daquele momento, ser mais tolerante, compreensivo e paciente. Quando ferimos ou magoámos alguém com nossas ações ou palavras, e logo depois procuramos consertar o erro, percebemos que é tarde demais. Quando me vem a vontade de explodir com alguém, lembro daquela folha de papel amassada.

Certa vez escutei alguém dizer: "Fale quando suas palavras pareçam suaves como o silêncio".

- Como uma folha de papel a flutuar no ar, pensei!

 

 
 
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