ENSAIOS de Carlos Kaliban
AS ATITUDES DE NOSSA CRIANÇA

Temos dentro de nós todas as idades anteriores. Elas fazem parte do nosso registro, da nossa memória e em determinados momentos cada uma destas idades parece atuar.

Situações que estão ocorrendo ou esperamos que aconteçam acionam mecanismos dentro de nós que nos conectam à determinadas épocas ou idades de nossa vida.

A maior parte daquilo que temos registrado, como experiências básicas de vida, se deu na infância. Nossa criança aprendeu ou não, a se comportar e a realizar as ações necessárias para obter aquilo que desejava. O que e como aprendeu se constituirá na base para o comportamento do adulto.

Todos nós continuamos sendo adolescentes, crianças e bebes, tal como fomos. Assim, em nós, estão contidas todas as atitudes, virtudes e todos os defeitos na forma que foram estabelecidos.

O adulto pode ser definido, de uma forma simplificada e considerando um aspecto isolado, como aquele que age sem dependência emocional de outro.

As idades que existem simultaneamente dentro de nós, são diferenciadas pelo seu grau de dependência em relação ao outro, variando de maior dependência (bebe) até menor dependência (adulto).

No entanto, é a criança dentro de nós que acumula a maior quantidade de experiências que tendem a emergir como memória comportamental básica em nossa vida de adulto. Nisto, as dependências aparecem como fatores predominantes que definem nossas ações ou omissões.

Quando nos sentimos assustados, preocupados, com medo, perdido ou desorientado ou mesmo sem conseguir saber o que está acontecendo conosco, é nestes momentos que a nossa criança assume o controle no lugar do adulto.

Quando isto ocorre, como criança vemos como única solução pedir ajuda a um adulto que confiamos e que possa resolver as situações por nós, já que não as conseguimos resolver.

A criança, na verdade, não pode tomar conta de si mesma. Mas, embora ela exista e assuma o controle em determinados momentos, não podemos nos esquecer que também o adulto continua existindo dentro de nós. Inicialmente é este adulto que deve assumir o controle e tomar conta da criança e não um outro adulto externo, mesmo que confiável.

Quando este adulto, que está dentro de nós, não conseguir lidar com determinada situação, é ele quem deve procurar ajuda externa e não a criança.

É perfeitamente possível conviver conosco e depender de nos mesmos. Mas para agir de acordo com este conceito é importante saber que precisamos dos outros e que não somos autossuficientes.

Encontrar uma outra pessoa que queira o mesmo que nós e possa compartilhar uma relação com intensidade e amor, vai depender do sucesso do nosso adulto e também do amadurecimento do adulto do outro.

Somente quando uma pessoa é responsável por si própria, ela é capaz de ser o adulto externo que pode ajudar o adulto interno do outro.

É importante, em cada momento da vida, que nos conheçemos o suficiente e assim possamos identificar qual idade de nossa vida está agindo. A partir disto, nosso próprio adulto deve assumir e só quando ele não conseguir resolver é que deve procurar ajuda de um adulto externo.

Se não for assim, tudo passa a ser dependência que a partir de uma determinada quantidade e intensidade, a dependência passa a ser caracterizada como doença e deve ser clinicamente tratada.

 
 
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