ENSAIOS de Carlos Kaliban
ELES ESTÃO EM SILÊNCIO

Um relacionamento que estava tendo chegou ao final. Muitas foram as palavras trocadas e muitos foram os pensamentos expressos através delas. Horas e horas consumidas por um eterno diálogo ou talvez por dois eternos monólogos. E terminou com palavras, ásperas, tomadas de emoção e agressividade! Palavras que deveriam unir, mas que acabaram separando, e de vez!

Andava pelas ruas desnorteado e nesse vagar cheguei a uma praça. Sentei em um banco e comecei a escutar um turbilhão de pensamentos. Parecia uma multidão falando ao mesmo tempo, mas era uma só voz. A minha!

No banco à frente do que eu estava sentado, um casal permanecia em silêncio. Sentados, de mãos dadas, ora olhavam para frente, ora um para o outro e ora focavam uma direção qualquer.

Comecei a observá-los, o que fiz por certo tempo. Comecei então a criar uma história mental sobre eles: Já tinham certa idade e deveriam estar ali pensando nas próprias vidas. Quem sabe muito tempo juntos. Talvez cansados da vida que levavam. Pudera! Tantas brigas e tantas desilusões! Devem estar pensando em decisões. Como dizer um ao outro que tudo tinha terminado. Que palavras usar sem que se agredissem.

Com o passar do tempo o silêncio entre os dois começou a me incomodar. Que falta de atitude! Que passividade! Nem uma palavra trocada até aquele momento! Que vida vazia e sem graça!

Não agüentei. Levantei e fui até eles perguntando se podia sentar. Disseram que sim, através de gestos. Sem perder tempo sentei e perguntei:

“Porque vocês estão todo esse tempo em silêncio? A vida de vocês está tão vazia assim? Falta coragem de se separarem? Porque vocês não se falam?

O casal, olhando um para o outro, sorriu pela primeira vez. Depois se dirigiram a mim e começaram a responder, frase por frase, ora um, ora outro, pausadamente como se pedissem a minha máxima atenção:

“Não estamos em silêncio. Estamos conversando em silêncio, o que é muito diferente. Aprendemos a fazer isso ao longo dos nossos trinta e dois anos de relacionamento. Não usamos palavras e sim sentimentos. Não usamos o mundo exterior em nossa comunicação mais profunda e sim o mundo interior. Comunicamos através do nosso ser, do nosso coração. Para isso não precisam palavras. Cada um de nós conhece as alegrias do outro e também as tristezas. Apoiamos e transferimos energia de um para o outro quando necessário. Mas fora disso temos uma vida “normal”! Temos filhos e netos, com os quais convivemos de uma maneira bastante sadia. Temos amigos. Passeamos, viajamos, namoramos e nos amamos tal como nas primeiras vezes. Podemos dizer, usando as palavras que você quer escutar: “Somos felizes!”

“Como se deu esse processo? Como vocês concluíram, ao longo da vida, que podem se relacionar em silêncio?” Eu perguntei na esperança de conseguir algo mais que me fosse útil no futuro.

“Pela observação! Começamos a observar o beijo. Aquele momento em que os lábios nos calam e os olhos se fecham. Naquele momento que estávamos sem falar e sem pensar, apenas se tocando e se penetrando com carinho e silêncio. O momento do beijo falava por si só e o silêncio estava ali, sempre presente. Depois observamos o momento após fazer sexo, quando nos abraçávamos e ficavamos sentindo durante muito tempo aqueles momentos que tínhamos vivido. Sem palavras, sem imagens e em silêncio. Mais uma vez o silêncio estava presente. Nas refeições, começavamos a conversar através de olhares e sempre atentos ao fato de que, naquele momento, estávamos presentes. Presentes um para o outro. Ali também o silêncio estava. E em muitos outros momentos de nossa vida, o silêncio nos mostrava a sua importância e a sua serventia. A partir de percebê-lo passamos a vivê-lo no nosso dia a dia. As palavras não mais nos agridem. Elas existem e são utilizadas quando necessário, mas nunca para gerar conflitos, discórdias ou desentendimentos. Tudo se resolve no nosso interior e em silêncio.”

Uma luz se acendeu dentro de mim. A necessidade que eu tinha de estar sempre falando se amainou. Um novo caminho acabava de ser transmitido e eu começava a pensar seriamente nele. Aí eu lembrei que era tarde de quinta feira e logo seria noite. Noite de comemoração. E comecei a contar a minha história, desde o momento em que percebi o estrago que palavras mal utilizadas podiam causar.

 
 
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