ENSAIOS de Carlos Kaliban
EU E O OUTRO

Algumas coisas nos foram ditas aqui e ali. Achamos bonitas muitas citações que escutamos ou lemos, mas normalmente elas se vão como vieram e continuamos em nossa busca por algo mais. Este algo mais, normalmente é chamado de ser interior, de Deus, ou de algo que não sabemos definir nem dar um nome que tenha um real significado.

Lembro-me de um padre que conheci a muitos anos, na década de 1970. Na época era comum se escutar que “O casamento já era!” Era uma espécie de jargão que definia o relacionamento conjugal como uma instituição literalmente fracassada e falida. Aquele padre repetia sempre: “Vocês estão enganados! O casamento ainda não é!” Ele afirmava isto categoricamente.

Eu refletia muito sobre o que ele falava, mas só conseguia entender de uma forma geral. Exatamente como seria esta instituição que ainda estava por existir, eu não tinha menor idéia.

Os tempos passaram e em um determinado momento da vida, comecei a juntar as peças de um “quebra cabeças”. Uma imagem mais compreensível foi se formando.

A nossa civilização fez uma separação geral de tudo que originalmente e na realidade é unido. O conceito de Deus como o “todo unificado” praticamente desapareceu. Assim foram criadas imagens conceituais representando as partes do todo como, se esta separação fosse possível. O Eu passou a ser uma entidade isolada e única enquanto toda a humanidade passou a ser constituída dos Outros. Cada ser humano que não o Eu, passou a ser o Outro. Algo separado.

Assim, a partir de sua própria criação, o homem procura unir aquilo que ele separou, mas através de modelos que ele próprio concebeu.

A necessidade do outro é acompanhada pelo medo. Isto acontece na maior parte do tempo da existência dos seres humanos. Esta separação entre o Eu e o Outro se deu através do desenvolvimento da estrutura mental. O conceito de separação violenta aquilo que originalmente sempre foi unido. É um conceito puramente mental, cuja estrutura é apoiada pelo ego e se constitui de uma forma fortemente enraizada em nossa cultura.

Passa então a ser impossível ao Eu se colocar no lugar do Outro. Então o outro é apenas reduzido a um personagem que tende a ser generalizado com a colocação de rótulos. Conhecer o Outro, passa assim a ser a ação de se rotular a partir de algumas poucas informações obtidas. Sob a tutela do “conhecimento”, quase sempre mínimo e distorcido, criamos barreiras em vez de união. A procura da aproximação é sabotada pelo medo e pela desconfiança. Isto nos faz recuar e ficar na defensiva.

Agredimos em grande parte por não conseguir interagir com o outro mais intimamente. Precisamos desenvolver uma personalidade para nos distinguir e nos valorizar perante o outro. Quase sempre nos referimos ao outro de forma rotulada: Fulano é isto ou aquilo, como se estes rótulos definissem a totalidade do outro. Alguém que tenha mais intimidade com a pessoa da qual falamos, perguntaria: “De quem você está falando? Esta pessoa não é isto!”.

Um novo modelo de relacionamento, que na verdade tem a idade da própria humanidade, deve partir do nada. Inicia-se com a simplicidade e não como fruto de mundos complexos e individuais, sobrecarregados de problemas e de histórias. Um verdadeiro fardo que as pessoas transportam e espertamente procuram alguém para ajudá-las a carregar.

Este modelo, na forma que é deslumbrado, não procura unir o eu ao outro. Começa pela consideração que não existe esta separação. Podemos assim dizer que o Eu e o outro “somos um”. E “Somos um em Deus”. Isto é o todo. Isto é a unicidade.

A partir deste ponto, pode então existir o chamado amor incondicional. Como posso me opor a mim mesmo? Como posso ser meu inimigo? Como posso me agredir? Como posso não me perdoar? Tudo o que possamos entender como relacionamento e conhecimento do outro, não parte da mente, mas do nosso ser interior. Tal relacionamento tem sua base onde existe paz e silêncio. Nesta condição de existência não é necessário procurar. Tudo o que importa já está lá, no interior e está unido.

Quando duas pessoas se sentem atraídas em função desta visão interior e conseguem entender que aí está o verdadeiro ponto de partida, elas têm tudo para serem felizes e se realizarem. Elas não vão julgar e nem vão tentar entender nada. Vão simplesmente viver e cada vez mais retornar às suas origens e estabelecer um alinhamento entre os seus seres interiores e o universo.

É no nada que se deve começar tudo, sem a presença da carga enorme que juntamos e transportamos pela vida. Coisas inúteis que não nos ajudam a ser felizes, mas que vão continuar sempre a nos escravizar.


 
 
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