ENSAIOS de Carlos Kaliban
MOMENTOS NA VIDA

Existem momentos na nossa vida que são marcantes. Estes momentos mudam condições e trazem transformações.

São momentos tais como: O próprio nascimento, o casamento, o nascimento de filhos, uma separação, a perda de um ente querido (mãe, pai, filho, esposa, marido...), a obtenção de um emprego, uma demissão, a aposentadoria, uma doença grave, uma tragédia, uma forte emoção, uma importante escolha certa, uma escolha péssima, uma relação que se perdeu, uma nova relação e por último, nossa própria morte.

Estes momentos têm importância variada em função da pessoa que os vive. Uma separação pode ser para uma pessoa simplesmente uma libertação, para outra pode ser o limiar de uma transformação e início de uma nova vida.

Muitos foram os Momentos marcantes em minha vida. Alguns marcaram mais do que outros. Alguns ainda transformaram minha vida de tal forma, que posso dizer que existe um “antes” e um “depois” daqueles momentos.

Lembro-me de quando meu pai morreu. Isto foi em 1982. Em 19 de março. Exatamente no dia do aniversário dele. Morreu com 62 anos. Estou com 65 anos. Data de hoje: 26 de março de 2011.

Devido a uma situação de cunho legal, ele não tinha conseguido se aposentar aos 52 anos. Trabalhara desde os 14 (38 anos de dedicação). Uma vida profissional dedicada ao serviço público. A suspeita levantada afetou-lhe mais do que não conseguir a aposentadoria. Algo o tinha ferido de maneira muito profunda em seu elevado conceito de moral e dignidade. Ficou doente. Desestruturou-se e não conseguiu a partir daí dirigir sua vida. Ficou à mercê de drogas tranqüilizantes. Lutou contra elas com garra e determinação. Quando estava próximo da vitória, quase dez anos depois, contraiu um câncer, rápido, forte e altamente destrutivo. Em seis meses, depois do primeiro sinal, veio a falecer.

Acompanhei esta odisséia, desde 1973, na época com dois filhos ainda bebês, estruturando minha vida e vendo o meu modelo se desestruturar. Tudo aquilo para o qual eu tinha sido preparado e estava começando a realizar, passava a ser questionado. A situação de meu pai me fazia duvidar do meu próprio caminho. Seguia os seus passos e via onde ele tinha chegado. Um bom exemplo de caminho, mas um destino onde não queria chegar.

Em 1975 passei a ter contato mais íntimo com a espiritualidade e com Deus. Por volta de 1980 tive contato com a filosofia de um Mestre indiano que me fez literalmente “capotar”. Tudo tinha começado a mudar em mim. Olhava para meu pai doente e sentia que a sua cura dependia da mudança do seu estado de consciência e não das medicações em si. Como levar a ele tudo aquilo que eu estava descobrindo e que poderia salvá-lo?

Foi se instalando em mim uma grande culpa. Culpa de não conseguir fazer nada. Culpa de ficar impotente diante daquele homem que era o meu modelo de vida. Culpa diante de mim mesmo quando me sentia confuso, inseguro e com medo daquela situação que eu observava. Uma grande loucura fazia com que eu seguisse minha vida. Uma triste realidade fazia com que eu me tornasse lento e cauteloso.

Profissão, família, dinheiro, educação de filhos, fragilidade no relacionamento, futuro, quantas coisas são questionadas em momentos assim, quando se acompanha a doença de alguém muito próximo. Quantas mudanças na forma de ver a vida. É fácil andar quando os pés estão no chão e a cabeça está no alto, na direção dos céus. Quando tudo fica invertido, não é nada fácil. Andar plantando “bananeiras” e bater frequentemente com a cabeça no chão, no mínimo dói bastante.

Parece estranho para mim afirmar uma coisa, mas a morte de meu pai foi o que aconteceu de melhor para mim nesta vida. Dizer isto parece que eu não o amava. Mas tem uma outra explicação. A partir do momento em que ele morreu, eu comecei a me amar.

As minhas atitudes até 1982 (eu tinha 36 anos na época) eram motivadas por uma entre estas duas condições: Ou era porque meu pai assim queria (seguir o modelo de meu pai) ou era por oposição a ele (para afrontá-lo). Quando ele morre, me libertei. Caí na real, de que não precisava mais ter que agradar e me afirmar dizendo em voz silenciosa: “Olha pai! como eu procuro fazer tudo para ser admirado por você!” E também não precisava mais dizer: ”Viu? estou fazendo diferente! Você não manda em mim. Faço, não porque desejo mas porque é o oposto do que você quer. Eu tenho a minha personalidade”.

No dia em que ele se foi, jurei que o que aconteceu na vida dele e que causou sua morte não aconteceria comigo. Eu não iria morrer de câncer aos 62 anos. Eu iria mudar minha forma de vida, ser eu mesmo e tomar minhas próprias decisões. Este caminho estava acessível. Eu não precisava mais de aprovação e nem precisava ser contra ele. Eu estava sozinho finalmente e inteiramente responsável por mim mesmo.

As escolhas que tinha feito na minha vida começaram a ser questionadas. Situações foram sendo modificadas por mim. Escolhas que com meu pai vivo seriam impossíveis de serem feitas. Na seqüência, não de imediato, tentei montar um negócio próprio, me separei, casei novamente, pedi demissão no emprego, saí do Rio de Janeiro para o interior, consegui montar negócios próprios e minha vida seguiu, da forma que foi possível, mas sabendo que ela dependia de mim e não mais dele, meu pai.

A morte de meu pai mudou tudo na minha vida. Todas as minhas escolhas anteriores foram questionadas e a maioria modificada. A vida continuou e com verdadeiro pavor se aproximou o ano em que eu faria 62 anos. Nesse mesmo ano me aposentei. Agora estou com 65 anos. Não preciso agradar ninguém e nem ser contra ninguém para afirmar minha personalidade.

No meu caso, a morte de meu pai só me trouxe evolução. Hoje só guardo dele boas lembranças. Hoje só vejo o que ele foi de bom e aquilo que me influenciou positivamente. Hoje realmente amo meu pai. Posso dizer, com lágrimas nos olhos, que ele foi o melhor pai do mundo.


 
 
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