ENSAIOS de Carlos Kaliban
O LIVRO DA MINHA VIDA

Já pensei várias vezes em escrever um Livro sobre minha vida. Fiz ensaios, roteiros, dei títulos e nunca concluí nada. Gastei tempo, papel, memória de computador e nada saiu.

Frequentemente me questiono sobre o porquê desse desejo, o porquê dessa vontade.

O que é a minha história senão uma coleção de episódios interligados, às vezes de forma incompreensível. Quando tentei escrevê-la, ela se mostrou confusa, inconstante e bastante incoerente.

Cheguei a ter uma idéia: Separar em capítulos. Cada um versaria sobre um tema diferente. Assim eu poderia criar as “História Familiar”, “História Profissional”, “História Amorosa”, “História das Realizações Materiais”, “História das Minhas Frustrações”, “História do Meu Lazer”, “História da Minha Espiritualidade”, “História das Minhas Viagens” e assim por diante.

Como ligar isso tudo de forma a produzir um livro que faça sentido, tanto para mim ou para um outro leitor?

Contar a minha própria história é um exercício. Cada vez que conto para mim mesmo um trecho dela, ela assume uma forma diferente. A minha forma de ver e o o momento presente faz com ela se modifique ao longo do tempo.

Então, como colocar essa história em um livro? No momento em que o livro estiver pronto, a história contida nele não será falsa e inverídica?

Também é praticamente impossível escrever um livro sobre a minha vida, porque enquanto viver ele nunca vai estar pronto. Como concluir uma história que é minha, mas não depende de mim. Como definir o final que gostaría. Um final feliz? Quando colocar um ponto final? Em meu leito de morte?

Posso mudar o passado? Claro que posso! Ele é constituído de fatos e da percepção destes fatos através de mim. Se mudo a minha consciência e olho para o passado de outra forma ele poderá ser mudado. Tudo o que percebo são limitações. Tudo o que percebo de minha vida é passível de mudança. Não posso mudar os fatos mas posso mudar o efeito deles sobre mim. Trabalhar com o perdão e a compaixão é algo possível para que alguma coisa que aconteceu lá atrás possa hoje ser diferente. Assim posso mudar o passado , pelo menos para mim.

Da mesma forma, de posse de uma folha em branco posso escrever o meu futuro como um projeto a ser realizado. Mas construir esse futuro não depende só de mim. Com certeza ele vai ser diferente do planejado.

Às vezes, sou prepotente, achando que a minha história é rica e maravilhosa. Preconizo que deve ser de interesse do leitor tudo o que vivi, todas as minhas conquistas, todas as mudanças obtidas, toda a minha evolução, tudo o que aprendi e tudo que consegui realizar, para melhor ou para pior!

E como terminar o livro? Com que final? Um final feliz, trágico, cômico, misterioso, amoroso, cheio de esperanças? O final justifica o livro ou é o seu conteúdo que interessa?

Posso e devo escrever este livro. Ser publicado é inteiramente desnecessário. O importante é que ele seja sempre escrito e contado para mim mesmo, em todos os momentos da minha vida. O importante é que durante a minha vida possa reescrevê-lo, corrigí-lo, dar outros sentidos e outros significados a episódios vividos.

Encontrar aspectos positivos em momentos acontecidos de tristeza e frustação, é um trabalho meticuloso, mas importante.

Ver a vida, a minha vida, de uma ótica sempre diferente, é desejável.

Pior, melhor, certo, errado, feliz ou infeliz, são apenas palavras que quase sempre não dizem nada.

Posso e devo escrever esse livro. Para ter a certeza de que seria um livro rico, com muitos ensinamentos e conquistas, é necessário escrevê-lo para descobrir.

Viver a vida e desenvolver a consciência dela, é tudo. Quando dou um sentido a ela, tudo vale a pena. Não é só quando traz felicidade e sobretudo quando propicia paz. E a paz se encontra dentro de mim e só a mim pertence. A verdadeira mudança começa quando percebo isso. A verdadeira paz começa quando posso conviver comigo mesmo em meu interior, onde o que faz sentido é a ausência de tudo e onde o todo está presente.

Quando o tempo pára no meu coração, aí começa a eternidade. Lá não preciso de gente para conversar, namorar, passear ou fazer sexo. Lá não experimento a ausência de pessoas queridas que não podem mais voltar. Lá me retiro voluntariamente para realinhar os pensamentos e poder perceber a vida de forma diferente. Lá é o único lugar onde posso encontrar a minha alma, perdida de mim mesmo. Lá posso escutar minha própria canção e sentí-la como um murmúrio que trás um sentimento bom. Lá posso sentir o amor e a amizade como as coisas mais importantes da vida.

É dentro de meu coração que percebebo que os que me amam não são enganados pelos meus erros e pelas imagens obscuras ou distorcidas que eu tenha criado para mim mesmo. Que eles me lembram a minha beleza quando eu me sinto feio, minha totalidade quando estou dividido, minha inocência quando me sinto culpado, meu propósito quando estou confuso. Que a vida está sempre me lembrando quando estou afinado comigo mesmo e quando não estou.

O importante não é ser o escritor, um elemento externo ao livro, mas sim o real protagonista dele, entrando dentro dele e se perdendo para viver a história de uma forma absolutamente real.

 

 
 
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