POESIAS de Carlos Kaliban
O GALOPE DO HOMEM CALADO

Não consigo sonhar.
Acordo à noite e olho em volta.
Meus olhos procuram, vão até o horizonte.
Nada!
Apenas um deserto de dunas suaves
como os contornos de uma linda mulher.

O vento leva a areia que acaricia as dunas
como eu gostaria de fazer com a mulher.
Suave, contínuo, sem pressa, sem destino.
Apenas sussurro e carinho.

Ao contrário das dunas,
a mulher prefere o toque mais firme
e galopa ao comando do cavaleiro que a domina.
Bela, forte, jovem poltranca que não se cansa
até o cavaleiro se prostar,
saciado do galope, no deserto,
a deslizar, a rolar pelas areias,
a gemer e a sorrir.

Não sei se é noite ou dia.
Os meus olhos veêm apenas a luz
e meus ouvidos escutam a melodia.
Canção de amor que canto para me ninar,
esperando o sono,
para que o sonho possa voltar.

Óh! mulher!
Que fizeste ao me largar no deserto,
sem bússula ou cantil,
a me cansar do galope,
a me fazer relembrar,
das núvens, do céu cor de anil.

Eu que só conhecia
os meandros e os espinhos das florestas,
descobri enebriado os contornos de suas dunas
e rolei nelas o meu corpo
e senti o seu suor no meu
qual areias que o vento leva,
e de tuas mãos, com carinho,
recebi teu toque com tremor febril.

Enfim,
o vento cessa nas areias do deserto.
A noite volta suave e carinhosa.
A canção me acalma e tudo em volta,
volta a dormir.

E chega o sono,
e com ele o sonho,
e com ele a mulher,
que a minha lembrança mantém prisioneira,
completamente livre a me servir.
Te encontrarei no fim do deserto,
lá onde posso ir,
no sonho que livre navego,
no amor que sinto por ti.

Calado e feliz galopo,
sabendo que lá vou chegar.
Longe, muito longe,
onde a mulher está a me esperar.
Eu sou aquele que no deserto
a mulher escolheu largar.
Mas no deserto não me perdi
e a tua luz vou encontrar.

 
 
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